``Noites de Cabíria'' reestréia em cópia nova
São Paulo, 14 (AE) - ``Noites de Cabíria', considerada a primeira obra-prima de Federico Fellini, chega amanhã (15) à cidade em cópia nova. Mais do que isso. O filme, restaurado diretamente do negativo pelo Canal Plus italiano, incorpora uma sequência que havia sido censurada na época do lançamento.
Quando Fellini o terminou, precisava do aval da Igreja para inscrevê-lo em Cannes. Os rumores acerca de Cabíria não eram muito favoráveis. O prefeito de Roma queixava-se de que uma história sobre prostitutas poderia atentar contra a imagem da cidade. Claro, todo mundo sabia da existência das profissionais que atuavam no Passeio Arqueológico, um dos pontos turísticos de Roma. Mas colocar isso num filme era muito diferente. E havia o problema da Igreja, porque se dizia que o filme era blasfemo.
Quem intercedeu por Cabíria foi o padre Angelo Arpa, um jesuíta de idéias progressistas que depois se tornaria grande protetor dos cineastas brasileiros que foram estudar na Itália. Arpa recomendou o filme a um cardeal mais arejado. Este assistiu à projeção em uma sala improvisada, perto do cais do porto, em Gênova. Dotado de senso de espetáculo, Fellini alugou um trono numa casa de antiguidades e instalou-o no modesto estúdio para que o cardeal nele se sentasse durante a sessão.
Acabou dando certo, mas foi exigido o corte do episódio do ``homem do saco'. Este mostra a caridade individual de um benemérito. Ele perambula pelos bairros miseráveis e entrega aos mendigos alimentos que traz num saco a tiracolo. A Igreja achou que iniciativas particulares em sua seara não pegavam bem. O filme fez seu caminho mesmo sem este episódio que, no entanto, o enriquece e esclarece.
De fato, Cabíria é, como quase todos os filmes de Fellini, composto por episódios, pelo deslocamento do personagem por diversas situações nas quais ele se vai modificando. No caso de ``Cabíria', seriam cinco, sem contar o do ``homem do saco': Cabíria sendo atirada no rio pelo amante; a aventura com o astro de cinema; em peregrinação a Nossa Senhora do Divino Amor; no teatro de variedades e a tentativa de casamento.
Federico Fellini, que nascera para o cinema pelo neo- realismo, tirou a idéia de Cabíria de fatos bem reais. Durante a filmagem de ``A Trapaça', conhecera uma prostituta chamada Wanda, que tinha seu ponto debaixo do Aqueduto Felice. Ela lhe contara parte de sua vida miserável, dormindo sob as pontes, vendendo seu corpo e sobrevivendo como lhe era possível. Tentara por três vezes o suicídio por amor. E costumava dizer que, se não gostasse dos outros, a vida lhe seria impossível. Wanda incorporou-se à equipe de Fellini como uma espécie de consultora informal. No filme, uma personagem com seu nome é vivida pela atriz Franca Marzi.
Assim, Cabíria, interpretada por uma Giulietta Masina nunca menos que comovente, vive uma história banal, a da prostituta de bom coração que deseja casar-se e é enganada por todo mundo. Pelo papel, Giulietta ganhou o prêmio de interpretação no Festival de Cannes de 1957. O filme foi contemplado com o Oscar estrangeiro no mesmo ano.
Na verdade, Cabíria, prosaicamente chamada de Maria Ceccarelli, cumpre etapas sucessivas de um processo de desencanto. Uma via de ascese por meio do sofrimento, o que explica porque a Igreja não errou ao liberar o filme mas também explica porque os comunistas tiveram uma inicial má vontade para com ele.
Cabíria desencanta-se com o cafetão que a explora. Depois desilude-se com o homem famoso, que a usa para curar-se de uma momentânea crise conjugal. Vira objeto de chacota durante o show de magia de um teatro mambembe. E imagina que o príncipe encantado finalmente chegou, na (triste) figura de um contador tímido.
Desprovida de tudo, até de si mesma, Cabíria irá confrontar-se com a morte. Ou com a redenção, insinuada num daqueles ``finales' fellinianos típicos, embalados com a música de Nino Rota.
Existe o mal disseminado pelo mundo e há uma bondade inarredável e incorruptível - a de Cabíria. Essa presença positiva do bem, a possibilidade da redenção, sempre existente, sobretudo quando parece inalcançável, são os temas católicos desse filme que é sobre uma prostituta, como poderia ser sobre uma santa ou uma mártir. O que a Igreja deve ter percebido, mas deixou passar, é que o catolicismo de Cabíria é uma religião exasperada, em que fé, esperança e caridade batem-se em seu contrário a cada instante. Cabíria, a personagem, é uma pessoa simples. Mas Cabíria, o filme, não traz uma mensagem reta para católicos simples.
Falando de Cabíria, o crítico francês André Bazin disse que Fellini foi o diretor que levou mais longe a estética do neo- realismo; tão longe que chegou a atravessá-la, passando para o outro lado. Essa travessia penosa, do real àquilo que vai além dele, esse Rubicón cinematográfico foi vencido pelo cineasta em ``Noites de Cabíria'. A partir de Cabíria, Fellini passou a explorar um terreno movediço e desconhecido para si mesmo. Bom saltimbanco, deu aum cambalhota no escuro e fez a aposta improvável nessa contradição em termos chamada religiosidade laica.





