Noite termina com carinho de um fã
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terça-feira, 18 de maio de 1999
Sandra Boccia Agência O Globo 
O dramaturgo Alfredo de Freitas Dias Gomes se despediu da vida cumprindo um roteiro cultural que tinha a cara de São Paulo. Às 17 horas, hospedou-se num quarto comum do 22º andar do Flat Ninety, nos Jardins; às 19h30, seguiu para o Teatro Alfa-Real, em Santo Amaro, Zona Sul da capital e, à uma da madrugada, foi comer fetuccine e tomar vinho na Famiglia Mancini, no centro, uma das mais tradicionais cantinas italianas da cidade.
Sentado à mesa 27 do restaurante, de frente para a mulher, Maria Bernadete, ele abriu um sorriso terno quando o garçom quis amarrar um babador no pescoço do casal, sob o argumento de que o molho vermelho da massa poderia manchar a roupa do cliente:
Ele riu e respondeu: pode colocar porque assim eu me sinto criança outra vez, lembra Geraldo Fialho Brum, um dos garçons que o atenderam. Ao final do jantar, Brum pediu para posar ao lado do dramaturgo para uma foto. Tímido, ele recorda que ficou meio sem graça ao lado do ídolo (sempre fui fã das novelas dele), cabendo a Dias Gomes e à esposa a tarefa de quebrar o gelo: Eles fizeram questão que eu chegasse bem pertinho na hora do clique, rememora o garçom, salientando que, na hora de partir, Maria Bernadete sugeriu um táxi conhecido da casa, mas Dias Gomes, fiel ao estilo despojado, respondeu a ela que qualquer táxi era táxi e, por isso, poderiam apanhar um carro de frota. E decidiu entrar no primeiro carro que passava pela rua.
O casal já usara um táxi comum para deixar o teatro, onde assistira à opera Madama Butterfly, juntamente com outros 1.200 convidados. O diretor técnico da peça, Fernando Guimarães, afirma que Carla Camurati, diretora cênica do espetáculo, só viu o amigo passando pelo corredor, mas não teve oportunidade de falar com ele, que não foi ao camarim. Lamentando o acidente, ele disse que conversou rapidamente com Carla ontem pela manhã: Ela estava muito triste e disse que soube de tudo às 5 horas da manhã.
Ao sair da rua da cantina italiana, bastaram dois quarteirões para que o táxi de Dias Gomes entrasse na Avenida 9 de Julho, o caminho mais curto entre o centro e os Jardins. Na esquina com a rua Estados Unidos, os operários Alcides Régis Sampaio e Sidnei Delcídio cumpriam mais uma jornada noturna de trabalho quando ouviram o som agudo do impacto. Delcídio acompanhou cada fração de segundo da cena em que o ônibus biarticulado colheu o táxi, jogando o corpo de Dias Gomes para o asfalto, ao mesmo tempo que deixava o de Maria Bernadete preso no banco de trás.
O motorista, recordam as testemunhas, deu uma volta em torno do carro, passou a mão na cabeça, e pediu socorro. O sangue escorria da testa e dos lábios da mulher, que parecia não ter a menor idéia do que estava acontecendo. Só chorava. Nós a ajudamos a se sentar no banco enquanto o resgate não chegava. Mas ela não viu o corpo do marido, que estava estendido, de bruços, embaixo do táxi, conta Sampaio, que só mais tarde soube que a vítima que socorrera era o autor de um de seus personagens prediletos da televisão, o Odorico Paraguassu, de O Bem Amado. Àquela hora, contudo, não havia mais tempo para salvar o romancista: Ele chegou a dobrar o pé direito, como se quisesse reagir, mas em seguida ficou paralisado. Não respirava e seu corpo estava desfigurado.
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