Noite dos Tambores reúne 15 mil no Recife
Noite dos Tambores reúne 15 mil no Recife7/Mar, 16:50 Por Lúcia Maria Dias (especial para a AE) Recife, 07 (AE) - Nem mesmo as intervenções da prefeitura de Recife sobre o ritual da Noite dos Tambores Silenciosos conseguiram tirar o brilho da cerimônia, que, por mais um ano, prendeu as atenções de milhares de pessoas. Hoje, um público maior do que as 10 mil pessoas calculadas em 1999 se comprimiu no Pátio do Terço, bairro de São José, e não adiantaram as arquibancadas e o palco instalados pela prefeitura ao longo da área. Policiais militares estimaram em 15 mil pessoas o público presente. O ritual negro reuniu nove maracatus de nação e quatro afoxés, na cerimônia de celebração dos ancestrais negros e dos orixás do candomblé, este ano comandada pelo tatá (hierarquia mais alta entre os pais de santo da religião) Severino Martiniano da Silva, o mais conhecido como "Raminho de Oxóssi". Foi dele a voz que comandou as loas aos antepassados negros, aos orixás, pela força e fé para enfrentar a luta pela vida e pela paz entre os homens. Antes disso, a rainha do maracatu Estrela Brilhante, Mariú, de Igarassu, a 100 quilômetros da capital, recebeu as reverências da noite. Aos 104 anos, numa cadeira de rodas, ela é a mais antiga rainha de maracatu e conduziu as loas do grupo, formado por muitos dos descendentes dela. A cada ano, a cerimônia desperta mais curiosidade pelo misticismo e beleza, mas, de acordo com os preceitos religiosos da comunidade negra, não pode deixar o local, que envolve história e tradição. As intervenções da Secretaria Municipal de Cultura na tentativa de acomodar o público crescente e dar visibilidade ao ritual não foram bem aceitas entre os participantes. O palco armado impediu os maracatus de dançarem com os pés em contato com o chão, as entradas laterais para o palco obrigaram a longas caminhadas pelas vielas no entorno do pátio, desconcentrado os participantes, e as arquibancadas deram à cerimônia um traço de espetáculo que o ritual não tem. Essas eram as principais queixas do público e dos integrantes de maracatus e afoxés, necessariamente adeptos do candomblé. "Viemos e fizemos o nosso melhor - pela fé, pela noite, pela preservação dos nossos valores, nossa história", afirmou o babalorixá Expedito Paula Neves, "Dito de Oxossi", criador do afoxé Ylê d'Egbá. A controvérsia, entretanto, era anterior ao carnaval: a comunidade negra demonstrava perplexidade sobre a versão da origem do ritual propagada pela Secretaria de Cultura, segundo a qual as procissões de maracatu que culminam na cerimônia do Pátio do Terço viriam de há 35 anos. Pesquisador da cultura negra, Dito de Oxossi disse se apoiar em pesquisas e na história contada pelos antepassados dele, segundo as quais a Noite dos Tambores incorpora a simbologia de uma prática vinda do século 18. As procissões negras de culto aos orixás saíam da Igreja do Rosário dos Pretos, com alegorias à cultura branca para escapar à repressão, e circulavam pelas ruas do bairro de São José, considerado berço cultural. "Na época do tráfico de escravos, vieram para Pernambuco, especialmente para essa região da cidade, muitos ministros ebás - (sacerdotes de uma etnia originada na região do Benin), e as práticas religiosas vêm, portanto de muito antes do que se quer fazer crer", disse ele. No último dia de carnaval, 80 bonecos gigantes desfilaram em Olinda, com duas horas de atraso em razão da chuva ocorrida no fim da manhã. À noite, o multiartista Antonio Carlos Nóbrega entrava na Avenida Rio Branco, trazendo a poesia, a veia épica dos maracatus, o ludismo dos mamulengos que fez das apresentações dele entre as mais concorridas atrações do carnaval acústico de Recife.





