“Nobel’, COP, perda da mãe: a maior cientista da cidade nunca vai esquecer 2025
Em entrevista exclusiva à Folha, a pesquisadora da Embrapa Mariângela Hungria fala sobre suas glórias e seus temores
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de dezembro de 2025
Em entrevista exclusiva à Folha, a pesquisadora da Embrapa Mariângela Hungria fala sobre suas glórias e seus temores
Lúcio Flávio Moura 

Nas salas e laboratórios ligados pelos imensos corredores da Embrapa Soja, um centro de pesquisa instalado no distrito da Warta, cinco quilômetros distante da sede e 15 quilômetros da Catedral de Londrina, mulheres e homens se desdobram em instalações austeras para manter a excelência da grife que transformou a realidade da agricultura brasileira e a tornou respeitada em todos os continentes.
Em um destes espaços pequenos que guardam uma grande produtividade está a paulista Mariângela Hungria, 67 anos, uma gigante da inteligência nacional.
Ela tenta organizar uma agenda crivada de compromissos importantes que só uma protagonista sabe lidar. Ainda toma algumas decisões antes da conversa começar.
Na parede, quadros que alimentam a nostalgia da sua brilhante trajetória: reproduções do campus da Cornell University, no estado de Nova Iorque (EUA) e a deslumbrante paisagem de Sevilla (Espanha), lugares onde ela fez seus pós-doutorados. Um quadro também lembra todos os afetos típicos de uma escola de graduação, no caso dela o conceituado curso de agronomia da Universidade de São Paulo - a Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz - e seu solene edifício central de quase 120 anos localizado em Piracicaba.
A escolha por Londrina
Ela se espanta quando a reportagem lembra no início da conversa que sua biografia de muitas cidades se estabilizou há 34 anos em Londrina, uma marca que supera o tempo acumulado em pontos diferentes dos dois hemisférios. “Nunca tinha feito estas contas, mas se você está dizendo eu acredito”, brinca.“Quando eu me mudei para cá, só tinha estado aqui uma vez, num congresso”, lembra-se. “Quando voltei dos Estados Unidos, eu ainda estava lotada na unidade da Embrapa em Seropédica, nos arredores do Rio de Janeiro. Lá, minha filha mais velha precisava deslocar 30 quilômetros para frequentar o ensino médio. A mais nova, que tem necessidades especiais, também precisava de uma estrutura de apoio. Além disso, precisava ficar mais próxima dos avós que me criaram e que viviam em Itapetininga.
Londrina, segundo ela, foi uma escolha natural porque já naquela época era reconhecida por sua excelência em educação e saúde. "Além de estar no Paraná, um estado que sempre me encantou por ser um estado com uma agricultura sustentável, do plantio direto, das cooperativas, dominada por pequenos e médios agricultores”, conta.
“Mas confesso que eu vim com muito medo porque eu não tinha laboratório nem grupo de trabalho nem dinheiro. Por isso eu digo que virei de fato uma profissional em Londrina porque tive que construir uma estrutura e desenvolver projetos nos quais eu acreditava”. A relação com a cidade foi se fortalecendo à medida que seu trabalho foi ganhando importância. “Esta cidade me permitiu coisas que eu jamais sonharia, um reconhecimento que jamais poderia imaginar. Hoje eu não deixo Londrina por nada deste mundo”.
Se a segunda quinzena de dezembro é o período para avaliar a safra de resultados do ano, Mariângela pode se dar por plenamente satisfeita, embora sempre haja espaços para ressalvas em um coração cheio de esperanças e uma mente que carrega as inquietudes de uma pesquisadora. Em contraponto à incomparável perda de uma mãe, que faleceu aos 94 anos e deixou um vazio inerente ao papel de cuidadora desempenhado por 14 anos, 2025 foi vivido às glórias.
O “Nobel” da Agricultura
Ela foi nomeada personalidade do ano pela World Food Prize 2025, galardão máximo para qualquer agrônomo (concedido por uma fundação sediada no Iowa, no Meio Oeste dos Estados Unidos, o prêmio é considerado o “Nobel” da Agricultura), foi uma das vozes mais ouvidas na AgriZone da COP 30 em Belém (evento paralelo na Conferência do Clima da ONU com a finalidade de mostrar ao mundo a sustentabilidade da agricultura brasileira) e foi reconhecida com a Ordem do Pinheiro, a mais alta comenda outorgada pelo Governo do Estado do Paraná.
A razão de tanta importância? Ela mesma explica sua contribuição para a agricultura mundial. “As plantas precisam ter o que a gente tem: DNA, RNA, proteína, aminoácido. Isso tem que ter muito nitrogênio. Então, todos os seres vivos precisam muito de nitrogênio. E daí surge uma coisa que é um paradoxo, porque aqui o ar que a gente respira, ele é quase 80% de nitrogênio. Só que nenhuma planta ou animal consegue - ou nem nós homens conseguimos - usar esse nitrogênio, que são duas moléculas que são muito presas uma na outra. Só que alguns microrganismos que se desenvolveram há muito tempo têm uma enzima muito poderosa que consegue quebrar esse nitrogênio e utilizá-lo. Quando as plantas apareceram, eles começaram a estabelecer, por assim dizer, uma amizade em diferentes graus. Estes microrganismos passaram a promover uma troca de nitrogênio por carbono com as plantas. O trabalho que eu faço é procurar essas bactérias que possam dar o nitrogênio para essas plantas e assim permitir que essas plantas cresçam, possam produzir tudo sem tem que adicionar fertilizante nitrogenado”.

Nos 42 anos de Embrapa e, principalmente, nos 34 anos na unidade de Londrina, as pesquisas geraram dezenas de tratamentos biológicos para sementes que aumentaram significativamente a produtividade da soja e de outras culturas e reduziram a necessidade de químicos no plantio. As estimativas é que a engenharia agrônoma aplicada mudou o trato em 40 milhões de hectares de solo só no Brasil, poupando o País de gastar mais de R$120 bilhões em insumos, além de evitar a emissão de mais de 230 milhões de toneladas métricas de carbono por ano.
A mãe da Marcela
Tamanha façanha não é suficiente para tirar de Mariângela as benesses do anonimato. Ela brinca que em Londrina ela é tão somente a mãe da Marcela, a filha com múltiplas deficiências que é a companhia quase inseparável em suas andanças pela cidade. Nos postos de gasolina, no comércio, nos shoppings ou nos cinemas, onde ambas gostam de assistir às animações que entram em cartaz, a figura materna, a cuidadora, prevalecem sobre uma biografia de feitos sensacionais. “Quando eu estou chegando nos lugares, logo dizem ‘lá vem a mãe da Marcela’.. Tenho muito orgulho disso”, diverte-se.A cientista do ano viveu dissabores como qualquer cidadão brasileiro mais atento ao longo do ano. Ela ainda comenta inconformada a derrubada de 56 dos 63 vetos do presidente Lula da Silva à Lei Geral de Licenciamento Ambiental, encarado pelos ambientalistas como uma restauração do PL da Devastação, um conjunto de leis que flexibiliza regras de proteção aos recursos naturais em projetos de médio e grande porte.
“Logo depois de um trabalho maravilhoso que fizemos na COP, veio este balde de água fria. Não é a primeira experiência triste que eu tive, é verdade. Mas ver o Congresso representar os interesses de um grupo tão pequeno e poderoso foi um soco no estômago. Será que vamos continuar votando em pessoas que querem a devastação?”, lamenta.
Em 2026, a Terra continuará girando e a jornada sobre ela, por certo, guardará episódios surpreendentes e desconcertantes. A Embrapa vai continuar avançando nas pesquisas e Mariângela estará na linha de frente na defesa de uma agricultura sustentável. Na mira desta grande brasileira, o desejo de que o plano do governo federal de recuperação de áreas degradadas decole como um dia decolou a fixação biológica de nitrogênio, um futuro que só podia ser visto de microscópio na imensidão da Embrapa Soja. Não há como desprezar a fé e a força de quem já fez tanto pelo Brasil.


