France PresseBênçãoNo percurso que fez pelo centro do Rio, por quase cinco quilômetros, João Paulo 2º foi saudado com entusiasmo por populares, respondendo com acenos No início de sua terceira visita ao Brasil, o papa João Paulo 2º fez questão de falar dos desequilíbrios sociais do País. Ontem, em discurso de dez minutos, que fez logo após desembarcar na Base Aérea do Galeão, o papa lembrou ‘‘a distribuição desigual e injusta dos meios econômicos, geradora de conflitos na cidade e no campo; a necessidade de uma ampla difusão dos meios básicos de saúde e de cultura; os problemas da infância desprotegida das grandes cidades, para não citar outros’’. Esses problemas, disse João Paulo 2º, são ‘‘um desafio de enormes proporções’’ para os governantes.
Durante a viagem de onze horas, entre a capital da Itália e o Rio, o papa já havia demonstrado disposição de tocar na questão social. Numa conversa de dez minutos com o grupo de jornalistas que viajaram no mesmo vôo da Alitalia, ele referiu-se ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Para João Paulo 2º, a questão agrária deve ser resolvida com urgência pelos brasileiros.
O avião do papa pousou na Base Aérea às 15h47. João Paulo 2º veio ao Brasil, maior país católico do mundo, para presidir o 2º Encontro Mundial das Famílias e um Congresso Teológico.
Ao pisar em solo brasileiro, 15 minutos antes do previsto, no aeroporto do Galeão do Rio de Janeiro, foi recebido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em meio a fortes medidas de segurança. Um coral de crianças de escolas públicas também recebeu o papa agitando bandeirinhas brancas e amarelas.
João Paulo 2º ficará até domingo no Brasil, onde o esperam 112,5 milhões de fiéis. Trata-se de sua 80ª viagem fora da Itália e sua 15ª visita à América Latina.
Em seu discurso de 12 minutos, o papa João Paulo 2º referiu-se também à ‘‘infância desprotegida’’, aos ‘‘conflitos na cidade e no campo’’. Fez ainda a defesa de duas minorias étnicas, a dos índios e a dos negros.
Por sua vez, o presidente Fernando Henrique Cardoso, em discurso de saudação, procurou problematizar bem menos as desigualdades sociais brasileiras. Disse que o País ‘‘felizmente reencontra o caminho do desenvolvimento e da justiça’’, e que se inspira nos valores cristãos para ‘‘o desenvolvimento pleno da pessoa humana’’.
O papa não chegou a beijar o chão, como fez em suas duas visitas anteriores. FHC, ao recebê-lo, segurou por baixo os dois braços que ele estendia, como se estivesse servindo de apoio por cerca de um minuto. Foi em seguida com o andar lento e arcado que João Paulo 2º caminhou em direção à tribuna coberta em que faria seu discurso. Primeiro falou FHC. Disse que a ‘‘mensagem de amor e caridade’’ que o papa trouxera em suas visitas anteriores ‘‘tem sido para nós, invariavelmente, uma fonte de inspiração nos esforços que fazemos para sermos uma sociedade melhor, mais humana’’.
Lembrou o ‘‘diálogo franco e proveitoso’’ que tivera com o papa, no encontro que ambos mantiveram no Vaticano. No jargão diplomático, ‘‘diálogo franco’’ é uma expressão que indica divergências. FHC, no entanto, não deu indicação sobre quais seriam elas. João Paulo 2º, em seu discurso, não se limitou a criticar as desigualdades no Brasil. Também elogiou o País e seu povo, que ‘‘pelo gênio empreendedor’’ tem ‘‘um lugar na vanguarda entre as maiores potências do mundo’’.
Entre 16h37 e 17h05, quando num helicóptero Puma da Aeronáutica ele deixou a Base Aérea, em direção ao centro do Rio, o papa recebeu cumprimentos. Primeiro das autoridades constituídas - como os presidentes da Câmara e do Senado -, em seguida dos bispos, e a seguir do corpo diplomático e das 400 crianças de escolas católicas cariocas.
As crianças ganharam da Arquidiocese do Rio bandeirinhas do Brasil e do Vaticano que farfalhavam sozinhas, com a chegada do papa, em razão do vento forte que soprava ao fim da tarde na Ilha do Governador. Não precisaram se abastecer junto a vendedores ambulantes. Um deles, Hélio Reni da Rocha, 32, chegou a comparecer diante da Base Aérea com uma parte do estoque que comprou por R$ 0,60 a unidade, e que revenderia por R$ 1,00.

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