Resistir à intervenção branca ou permitir a perda da integridade física do território em troca de garantias de avanço sócio-econômico. O dilema dos caigangues e guaranis das reservas de Apucaraninha e Mococa, no Norte do Paraná, parece estar chegando ao fim.
A precária infra-estrutura das duas aldeias e a falta de pespectivas de apoio oficial convenceu os líderes indígenas a mudar de posição e aceitar o alagamento de parte de suas terras pelo reservatório da Hidrelétrica de São Jerônimo, a primeira do complexo de seis usinas previstas para o Rio Tibagi. A decisão foi tomada após uma votação convocada pelo cacique de Apucaraninha, Juscelino Virgílio, no mês passado.
Dos 1.375 habitantes da reserva, 236 foram às urnas. Apenas 28 votaram contra a proposta da Copel, responsável pelos estudos de aproveitamento hidrelétrico do Rio Tibagi. ‘‘Um líder indígena tem que saber respeitar a vontade do seu povo’’, diz Virgílio. Os moradores da reserva Mococa, em Ortigueira, também se decidiram pelo apoio à construção.
Aprovada a proposta, os índios produziram um documento ampliando o número de exigências da tribo para que a negociação fosse fechada. ‘‘É a única forma de sustento para as próximas gerações. É uma questão de sobrevivência para o nosso povo’’, defende o caigangue Lourival Renvai de Oliveira, presidente do Conselho Indígena do Paraná. ‘‘Tem muita gente contra mas ninguém faz nada de concreto para ajudar a gente’’.
O líder caigangue lembrou que a população da reserva Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), dobra a cada 10 anos e a área agricultável não é ampliada por falta de investimentos em insumos e maquinário. ‘‘Se continuar desse jeito, a pobreza só vai aumentar’’, argumenta. ‘‘Fomos até Brasília falar com a direção da Funai e soubemos que o governo vai continuar cortando investimentos em áreas indígenas. Não restou outra alternativa’’. Na capital federal, Oliveira buscou – sem sucesso – recursos para implementar um projeto de turismo ecológico, antigo sonho das lideranças da Apucaraninha e alternativa definitiva como fonte de renda.
O decreto legislativo que autoriza a obra está em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça. Tem ainda um longo percurso até chegar a plenário e pode não valer nada caso a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ou o Instituto Ambiental do Paraná (através da não-aprovação do Relatório de Impacto Ambiental da obra) desaprove a construção da hidrelétrica. Mas a negociação que envolveu índios, Copel e deputados federais está sendo considerado um divisor de águas nas relações dos indígenas e seu território com grandes investimentos externos.
De acordo com o decreto, serão contruídas 390 casas divididas em diversos núcleos, um hospital, um posto de saúde 24 horas, um centro de tradições, um centro de turismo e um ginásio de esportes. Para montar esta infra-estrutura, os empreendedores terão que desembolsar aproximadamente R$ 6 milhões.
Além disso, estão previstos a doação de um total de 1,2 mil alqueires de terras (quatro vezes mais que a área inundada) investimentos na composição de matas similares as que serão submersas pelo reservatório, o fornecimento de maquinário agrícola e insumos, doação de utilitários para transporte de passageiros e combustível, preferência para os índios trabalharem nas obras e na operação da usina, reforma do cemitério da tribo. Outros R$ 1,4 milhão serão destinados às famílias para os gastos com a mobília da novas casas.

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