No PR, índios desistem e cedem área
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terça-feira, 26 de setembro de 2000
Lúcio Flávio Moura De Londrina 
Resistir à intervenção branca ou permitir a perda da integridade física do território em troca de garantias de avanço sócio-econômico. O dilema dos caigangues e guaranis das reservas de Apucaraninha e Mococa, no Norte do Paraná, parece estar chegando ao fim.
A precária infra-estrutura das duas aldeias e a falta de pespectivas de apoio oficial convenceu os líderes indígenas a mudar de posição e aceitar o alagamento de parte de suas terras pelo reservatório da Hidrelétrica de São Jerônimo, a primeira do complexo de seis usinas previstas para o Rio Tibagi. A decisão foi tomada após uma votação convocada pelo cacique de Apucaraninha, Juscelino Virgílio, no mês passado.
Dos 1.375 habitantes da reserva, 236 foram às urnas. Apenas 28 votaram contra a proposta da Copel, responsável pelos estudos de aproveitamento hidrelétrico do Rio Tibagi. Um líder indígena tem que saber respeitar a vontade do seu povo, diz Virgílio. Os moradores da reserva Mococa, em Ortigueira, também se decidiram pelo apoio à construção.
Aprovada a proposta, os índios produziram um documento ampliando o número de exigências da tribo para que a negociação fosse fechada. É a única forma de sustento para as próximas gerações. É uma questão de sobrevivência para o nosso povo, defende o caigangue Lourival Renvai de Oliveira, presidente do Conselho Indígena do Paraná. Tem muita gente contra mas ninguém faz nada de concreto para ajudar a gente.
O líder caigangue lembrou que a população da reserva Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), dobra a cada 10 anos e a área agricultável não é ampliada por falta de investimentos em insumos e maquinário. Se continuar desse jeito, a pobreza só vai aumentar, argumenta. Fomos até Brasília falar com a direção da Funai e soubemos que o governo vai continuar cortando investimentos em áreas indígenas. Não restou outra alternativa. Na capital federal, Oliveira buscou sem sucesso recursos para implementar um projeto de turismo ecológico, antigo sonho das lideranças da Apucaraninha e alternativa definitiva como fonte de renda.
O decreto legislativo que autoriza a obra está em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça. Tem ainda um longo percurso até chegar a plenário e pode não valer nada caso a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ou o Instituto Ambiental do Paraná (através da não-aprovação do Relatório de Impacto Ambiental da obra) desaprove a construção da hidrelétrica. Mas a negociação que envolveu índios, Copel e deputados federais está sendo considerado um divisor de águas nas relações dos indígenas e seu território com grandes investimentos externos.
De acordo com o decreto, serão contruídas 390 casas divididas em diversos núcleos, um hospital, um posto de saúde 24 horas, um centro de tradições, um centro de turismo e um ginásio de esportes. Para montar esta infra-estrutura, os empreendedores terão que desembolsar aproximadamente R$ 6 milhões.
Além disso, estão previstos a doação de um total de 1,2 mil alqueires de terras (quatro vezes mais que a área inundada) investimentos na composição de matas similares as que serão submersas pelo reservatório, o fornecimento de maquinário agrícola e insumos, doação de utilitários para transporte de passageiros e combustível, preferência para os índios trabalharem nas obras e na operação da usina, reforma do cemitério da tribo. Outros R$ 1,4 milhão serão destinados às famílias para os gastos com a mobília da novas casas.


