Em São Jerônimo da Serra, no Norte Pioneiro, vivem pouco mais de 10,8 mil pessoas. Entre elas, Dienefer da Silva cresceu olhando a própria cidade como um lugar estreito demais para caber seu futuro. “Eu olhava e via uma cidade pequena. Eu não me via morando aqui. E pensava: ‘Como é que eu vou construir algo nesse lugar?’”, lembra.


Segundo os dados do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social) e IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), São Jerônimo da Serra, tem, em 2026, 10.884 mil habitantes, número que estava em queda, está em crescimento últimos dois anos. Em 2019, esse número era de 11.170. O município faz parte do grupo de 303 cidades paranaenses que têm menos de 20 mil habitantes e a população com mais de 70 anos quase triplicou nos últimos 20 anos. A cidade, que está habituada a ter mais partidas do que chegadas, se acostumou com a saída de seus jovens, o envelhecimento da população e a perda de dinamismo econômico.
A resposta para Dienefer veio, aos 29 anos, dentro de sua casa, fazendo salgados em pequenas bandejas para vender a familiares, amigos e conhecidos. Ela não tinha loja, não tinha capital e não tinha maquinário suficiente. Uma produção quase invisível para muita gente. “Ninguém me conhecia aqui. Falavam: ‘de quem é esse salgado?’. ‘Ah, é da Dienefer’. ‘Mas quem é a Dienefer?’”

A cerca de 60 quilômetros dali, em Santa Mariana, Francieli Félix Silva Pires Pereira, a Fran, experimentou uma receita. Primeiro, geladão gourmet. Depois, quando o frio chegou e a venda caiu, recorreu à memória da avó: churros.

Separada, mãe de dois filhos, um deles autista grau 3, ela precisava colocar comida na mesa. “Eu estava muito para baixo. Falei: ‘Meu Pai, o frio chegou, eu não sei o que vou fazer’. Aí lembrei da minha avó, que fazia churros para nós. Às vezes as pessoas acham que empreender é ganhar muito dinheiro, virar milionário. E não. Às vezes empreender é para suprir a necessidade da casa, porque não temos para onde correr.”


As duas mulheres vivem em municípios de tamanho parecido. Santa Mariana tinha 11.066 habitantes no Censo de 2022 e população estimada em 10.941 pessoas em 2025, segundo o IBGE. Ambas pensaram, em algum momento, que o caminho natural seria ir para uma cidade maior. Mas as duas encontraram, dentro do próprio território, uma alternativa que à primeira vista não estava "no cardápio".
Para Dienefer, a virada veio quando recebeu o convite para participar de um programa de capacitação chamado "Mulheres em Superação". Ela foi por curiosidade. No primeiro encontro, percebeu que havia encontrado um caminho. “No primeiro dia eu falei: ‘Meu Deus, estou no lugar certo. É isso que eu quero, é isso que eu vim buscar, é disso que eu preciso’.”
Ao fim da formação, veio a possibilidade de crédito. Dienefer não acreditava que conseguiria. Já havia tentado em outras instituições e ouvido que era nova demais, que não tinha estrutura suficiente, que não se encaixava. “Eu fiz tudo pelo celular. Quando falaram que estava tudo certo e que em dois dias cairia o investimento na conta, eu não acreditei. Eu estava sem reação.” Com o crédito, ela reformou um prédio alugado, colocou piso, comprou balcão refrigerado, estufa, freezer e montou a salgaderia como havia desenhado no papel. “Eu fiz do jeitinho que estava no meu sonho.”
Ao pensar em como seria sem aquela oportunidade, Dienefer não responde, mas desabafa. “Meu sonho estaria enterrado. Esse crédito não é sobre dinheiro, é sobre vida. Eu já estava desistindo de tudo. Foi ali que eu pude voltar a sonhar", emociona-se. “Hoje eu posso dizer que eu acredito em mim e na minha cidade.”
Fran foi a uma palestra certa noite após o trabalho para aprender algo mais. “Nossa, eu saí de lá voando. Saí tipo uma borboleta. Pensei: ‘É agora’!” Depois fez o curso, acessou crédito, comprou o carrinho de churros e passou a vender em feiras. O que antes era sobrevivência virou empreendimento e passou a ser exemplo. “Se eu não tivesse aceitado aquele convite, se eu não tivesse prestado atenção em tudo aquilo, eu ia continuar sentada no mesmo lugar. Eu ia continuar sendo a mesma.”

Ela conta que sua história inspira outras mulheres ao seu redor e que cooperam entre si. "Onde eu faço churros, outra vende pipoca, outra artesanato. Eu fico feliz de ver que estive no buraco e saí de lá para ser luz para um monte de mulher que também estava no buraco.”

Em municípios pequenos, uma história individual raramente fica limitada a uma casa, a uma cozinha ou a uma loja. Quando alguém abre um negócio, compra um carrinho, reforma um ponto, aumenta a produção ou decide permanecer, a cidade inteira sente algo mudar. O dinheiro circula, o comércio se movimenta, outras pessoas se encorajam.
Vista de cima, no mapa, Dienefer é uma moradora entre milhares em São Jerônimo da Serra. Fran é uma moradora entre milhares em Santa Mariana. Mas, aproximadas, suas histórias são o recorte de quem, no jogo de ir e vir, decidiu ficar em seu território e prosperar.
Uma atitude que, como na alegoria de Fran que se comparou a uma borboleta, que elucubra a uma famosa metáfora dentro da Teoria do Caos, que sugere que pequenas variações nas condições iniciais de um sistema complexo, como o bater de asas de uma borboleta no Brasil, podem gerar consequências enormes e imprevistas, como um tufão ou furacão do outro lado do mundo.
O mapa do amanhã
O Paraná tem 399 municípios. Desses, 101 têm menos de 5 mil habitantes e 303 têm até 25 mil habitantes, segundo levantamento feito pela reportagem a partir de dados populacionais municipais do Ipardes e do IBGE. Em debates sobre eficiência fiscal e reorganização administrativa, esses pequenos municípios aparecem com frequência sob a lógica da viabilidade: arrecadam pouco, dependem de transferências, têm estruturas administrativas caras para o tamanho da população e, em alguns estudos, são tratados como candidatos à fusão ou incorporação por municípios vizinhos para melhorar a eficiência do Pacto Federativo. Em propostas de reorganização federativa, municípios com menos de 5 mil habitantes e baixa autonomia financeira aparecem como vulneráveis à incorporação por cidades vizinhas. No Paraná, a discussão alcança uma em cada quatro cidades.

O Estudo de Viabilidade Municipal elaborado no âmbito do Estado do Paraná, em atenção à Portaria nº 762/15 do TCE (Tribunal de Contas do Estado do Paraná), já apontava esse caminho. Segundo o relatório do TCE, "O que se pode afirmar com relativa segurança é que, apesar dos argumentos de economia, de escala e sobre déficits democráticos não serem totalmente convincentes, municípios com população inferior a 5.000 habitantes podem não apresentar condições de receber significantes responsabilidades públicas. Isto reforça a importância da discussão sobre emancipação de municípios, bem como sobre a própria necessidade de se considerar a possibilidade de consolidação (fusão) de municípios". De um lado, há a busca por eficiência, economia de escala e redução de custos administrativos. De outro, há perda de identidade local, redução de representatividade, menor acesso à administração pública e afastamento entre população e decisão política. O texto diz ainda que "acerca das criações, incorporações, fusões e desmembramentos de Municípios é a necessidade de estudos mais aprofundados sobre a questão, pois há muitas variáveis a serem consideradas, tais como: processo histórico de formação, federalismo brasileiro, escala municipal, custo da estrutura administrativa, repartição de competências, qualidade de vida local, desenvolvimento humano, entre outros temas pertinentes ao assunto".
A concentração populacional ajuda a dimensionar o contraste. Enquanto Curitiba, Londrina e Maringá reúnem juntas um contingente populacional próximo ao dos 101 menores municípios paranaenses juntos, o restante do estado se distribui em uma ampla rede de cidades pequenas, muitas delas com forte dependência de serviços regionais em cidades maiores.
Quando a cidade deixa de girar
Uma das razões que contribuem para o fenômeno de esvaziamento das cidades pequenas é a migração pendular. A sua pior consequência é a perda de autonomia financeira. Quando seus moradores precisam sair para 'resolver a vida' - sacar dinheiro, pagar contas, buscar crédito, fazer a compra do mês, estudar, ir ao médico ou empreender, esse movimento pendular cria uma drenagem financeira, o dinheiro sai junto com a pessoa, o consumo se desloca, o comércio local enfraquece, a arrecadação diminui e a cidade passa a depender ainda mais de centros maiores, tal qual uma parlenda infantil.
Conforme avalia a geógrafa Jaqueline Vercezi, professora do Departamento de Geociências da UEL (Universidade Estadual de Londrina), o esvaziamento populacional no Norte Pioneiro, historicamente ligado ao êxodo rural (mecanização e fim do ciclo do café), hoje reflete a falta de diversificação econômica. "A região foi marcada pela expansão do café, pelas geadas, pela substituição de culturas, pela mecanização e pela mudança nas formas de trabalho no campo. Primeiro, o êxodo foi rural. Depois, as cidades pequenas também passaram a perder capacidade de retenção. Quando o território não oferece condições de permanência, a migração passa a ser uma resposta", diz. Segundo a professora, não se trata apenas de falta de emprego, mas de um conjunto de condições territoriais que fazem a população, especialmente os jovens, buscar outros centros. O desafio das pequenas cidades, afirma, é criar acesso, serviços, renda e pertencimento suficientes para que ficar deixe de ser falta de opção.
Como, por exemplo, é grande a parte de municípios paranaenses que não tem agência bancária tradicional e depende de postos de atendimento, estruturas eletrônicas ou deslocamento para centros vizinhos. De acordo com levantamento feito com dados do Banco Central, apenas 220 municípios do Paraná aparecem com agências bancárias, enquanto outros contam apenas com formatos reduzidos de atendimento. Entre elas estão São Jerônimo da Serra, Congonhinhas, Santa Mariana e Cafeara.

A chegada de cooperativas de crédito e a universalização da internet são apontadas como divisores de águas para o reerguimento de municípios pequenos, como o exemplo de Cafeara. A cooperativa não apenas injeta capital e crédito para o setor agropecuário local, mas cria um ciclo de consumo interno.
"O acesso à informação e às ferramentas digitais permite que essas cidades saiam do isolamento econômico, facilitando a gestão e o empreendedorismo local. O maior desafio das pequenas cidades para reter talentos é a gestão política visionária. Cidades que se destacam (como o exemplo de Maringá, citada como "inteligente") são aquelas onde o poder público atua de forma proativa para atrair empresas e infraestrutura. Existe, porém, uma dualidade: enquanto alguns buscam o crescimento, grupos influentes em pequenas localidades podem resistir à chegada de muita gente para preservar o 'sossego' ou manter estruturas de poder tradicionais", argumenta. O desenvolvimento, para Vercezi, depende de políticas que unam o incentivo econômico à preservação da qualidade de vida, garantindo que o morador veja oportunidade e futuro em sua própria terra.
“Essa é a principal dor, hoje, da população do interior do Brasil”, explica David Conchon, diretor de negócios da Sicredi Dexis, em Cafeara. “Nas grandes cidades esse problema existe, mas não aparece com tanta força quanto quando você vai um pouco mais para o interior.” Para Conchon, o desafio sempre foi olhar para pessoas de cidades pequenas como pessoas que também têm sonhos econômicos. “Nós temos que olhar para as pessoas como seres humanos, que têm suas dores, têm seus sonhos, e não são só pessoas que estão em grandes municípios que têm sonho de empreender, de trabalhar e de ter uma vida financeira sustentável”.
A cidade sem dinheiro
David Conchon foi responsável pela criação da primeira cidade sem dinheiro do Paraná. Em 2018, Conchon implantou em Cafeara um modelo de agência cooperativista sem circulação de dinheiro físico, a Smart Agência, ou Smart Contêiner. Na época, lembra Conchon, não havia Pix, nem o conjunto de ferramentas digitais que hoje facilitam transações financeiras. Sem instituição financeira, a população precisava sair da cidade para sacar dinheiro, pagar contas ou buscar crédito e o deslocamento tirava consumo do comércio local.



Cafeara tem pouco mais de 2,6 mil habitantes. Sem arrecadação, o município se enquadraria na regra de extinção/incorporação por não atingir o limite populacional. Cafeara provavelmente seria anexada por uma das cidades limítrofes, sendo a mais provável Centenário do Sul.
A Smart Agência tinha a proposta de oferecer atendimento financeiro sem manter numerário no local, reduzindo risco de assaltos e permitindo que moradores e comerciantes acessassem serviços dentro do próprio município. “Foi um projeto de muito sucesso, porque ele deu vida às pessoas, deu sonhos, deu possibilidade de essas pessoas poderem empreender”, confirma Conchon.
Com o sistema implantado, o comércio passou a usar mais máquinas de cartão e parte do consumo deixou de sair para municípios vizinhos. A experiência também teve impacto na segurança, já que o modelo funcionava sem dinheiro físico. Outro efeito da agência foi que a cidade ganhou cabeamento de fibra ótica e aumentou de 0 para quase mil domicílios com internet fixa, segundo dados da Anatel, entre 2018 a 2025. “Todo o comércio estava com as máquinas de cartão, todas as pessoas estavam com cartão. Fizemos uma grande transformação, não só no modelo de transação financeira, mas até no processo de segurança pública”, diz Conchon.

O projeto de Cafeara foi apresentado ao Banco Central e levado à sede da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, como exemplo de inclusão financeira em pequenos municípios. Para Conchon, o caso mostra que o acesso a serviços financeiros pode mudar a dinâmica econômica local.
Segundo estudo da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) sobre o impacto do cooperativismo nos municípios onde o sistema está presente, em municípios com presença da cooperativa, o PIB per capita aumenta 5,6%, as vagas de emprego formal são 6,2% maiores e há 15,7% mais estabelecimentos comerciais. “O impacto não é só da pessoa se sentir acolhida. Ele é real”, diz Conchon.
Segundo ele, diferentemente do sistema financeiro tradicional, em que os resultados são direcionados a acionistas, o cooperativismo opera sob lógica de distribuição de resultados e reinvestimento local, fortalecendo economias regionais de menor escala. "O que salva pequenas cidades é, em grande parte, o mesmo que salva pessoas. Acesso. Crédito. Trabalho. Circulação. Confiança. Possibilidade de permanecer."
"E as cooperativas são fundamentais nesse cenário", diz o contador Jorge Henrique Paiva, que observa o fenômeno por outra entrada: a circulação econômica.
A base empírica desse impacto aparece em estudo da Fipe, divulgado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro. A pesquisa aponta que para cada R$ 1 concedido em crédito por cooperativas, são movimentados R$ 2,56 na economia brasileira. O estudo também associa a presença de cooperativas de crédito nos municípios ao aumento do PIB per capita, da geração de empregos formais, da massa salarial, do número de estabelecimentos e da arrecadação tributária.
"Diferentemente dos bancos tradicionais, que exigem comprovações de renda rigorosas e declarações formais de imposto de renda, as cooperativas costumam oferecer um relacionamento mais facilitado e personalizado. Essa proximidade permite que o pequeno investidor ou empresário iniciante tenha mais visibilidade e acesso ao crédito, mesmo sem o histórico robusto exigido pelo sistema financeiro regular", explica Paiva.

Um dos pontos mais relevantes destacados por Paiva é o impacto social do crédito: o dinheiro captado em cidades como Rolândia, Cambé ou Arapongas permanece circulando na própria região. "Ao fortalecer empresas e pequenos produtores locais, cria-se uma barreira contra a concorrência externa predatória. Esse ciclo econômico, no qual o produtor investe, gera emprego e o colaborador consome no comércio local, é essencial para combater o êxodo urbano e rural, mantendo as pessoas em suas cidades de origem com dignidade e perspectiva de crescimento. Quando você passa a olhar de forma macro, verifica que existe uma vantagem muito grande de não sair daqui para ir para outro lugar.”
Produzir não basta
Em Congonhinhas, município de pouco mais de 8 mil habitantes, Márcio Leandro Conradh olhou para o macro e entendeu que o problema do pequeno produtor nem sempre está em produzir. Muitas vezes, está em vender.


Assentado da reforma agrária desde 2001, ele passou por diferentes atividades. Trabalhou com café, leite, hortifrúti, orgânicos, agrofloresta. Veio de uma trajetória marcada por deslocamentos, dificuldades e reconstruções. Em 2009, foi baleado em um assalto. Ficou com limitações físicas, mas continuou no campo. “Eu tenho o lado direito minimamente paralisado. Não consigo me desdobrar nas atividades da lavoura como antigamente. Mas, com dificuldade, a gente faz.”

Antes de se integrar à cooperativa, vendia cestas diretamente para famílias. Chegou a atender cerca de 70 famílias em grupos de WhatsApp. Algumas compravam semanalmente, outras quinzenalmente. O sistema funcionava até a pandemia interromper o fluxo. As famílias tinham medo de receber. Ele tinha medo de ir. As entregas travaram. Foi nesse momento que a COAF, cooperativa da agricultura familiar de São Jerônimo da Serra, apareceu como alternativa de escala e mercado.
A cooperativa vendia para programas institucionais, como PNAE e PAA, e abastecia municípios da região. Márcio entrou no grupo e passou a produzir em maior escala. Chamou vizinhos, organizou parcerias, diversificou a produção. “Produzir a gente sabe. Nós temos que produzir e produzir com qualidade. O gargalo está na comercialização. Individualmente, conseguir superar é muito difícil. Mas, em conjunto, junto na cooperativa, se torna muito mais fácil.”
O crédito permitiu ampliar a estrutura. Márcio buscou recurso para construir uma cozinha na propriedade. A esposa passou a produzir pães caseiros, bolachas, cucas e doces pastosos de frutas para atender mercados institucionais. Depois, veio a energia solar, importante para reduzir custos com irrigação, batedeiras, amassadeiras, despolpadeira e equipamentos elétricos.


A propriedade passou a operar como uma pequena rede econômica: hortifrúti orgânico, agrofloresta, panificados, doces, parceiros locais, certificação e vendas institucionais. “Juntos a gente consegue. Juntos nós vamos disputar mercado, procurar mercado, construir parcerias.”
Márcio também fala de outro efeito: o excedente que não é vendido não fica apodrecendo. A cooperativa ajuda a destinar alimentos a instituições, famílias, creches, asilos e casas-lares. A produção vira renda, mas também vira comida circulando na comunidade.

Há poucos quilômetros dali, também em Congonhinhas, Claudinei de Carvalho Nunes representa outra face da permanência: agregar valor ao que já existe. A história dele começa na lavoura de café, mas passa pela construção civil. Filho de família simples, cresceu em meio à dificuldade. “A gente vem de família tradicional na lavoura de café, de origem muito simples. Passou bastante dificuldade quando criança. A gente aprendeu que, para ter alguma coisa, precisa se esforçar bastante, correr atrás, lutar bastante.”

O café, naquele tempo, não tinha valor agregado. Muitas vezes compensava mais trabalhar para os outros do que na própria lavoura. Claudinei casou cedo, aos 18 anos, e foi para a cidade trabalhar na construção civil. Mas o vínculo com a terra permaneceu. “Parece que quem mexe com café, o café corre na veia.”
Em 2014, arrendou uma área e voltou a plantar. Entrou na associação de produtores de cafés especiais de Congonhinhas e região. A estrutura cooperativa fez diferença: tratores, implementos, maquinário, padronização, classificação, possibilidade de preparar cafés para mercados mais exigentes.




Segundo Claudinei, a rastreabilidade passou a ser um diferencial competitivo. Os produtores seguem normas, mantêm cadernos de campo e comprovam práticas relacionadas à origem do produto, respeito ambiental e ausência de irregularidades trabalhistas. “Descobrimos que temos cafés de boa qualidade, que antes o pessoal comprava tudo pelo café ruim". Com apoio da associação e acesso a crédito, Claudinei ampliou a produção, investiu em propriedade, qualidade, rastreabilidade e marca própria: Nunes Cafés Artesanais. Para ele, possibilidade de exportar café produzido em Congonhinhas representa uma conquista coletiva. “É uma grande vitória, porque daí você consegue exportar um café saindo daqui para outros países.”

A jovem que ficou
Em Cornélio Procópio, uma das principais cidades do Norte Pioneiro com menos de 50 mil habitantes, Larissa Moraes representa o futuro.


Ela conheceu o cooperativismo durante a pandemia, em 2021, quando entrou em um projeto de estágio ligado à UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná). Hoje, aos 24 anos, formada em administração e fazendo pós-graduação em sustentabilidade, ela atua como líder regional do Comitê Jovem, grupo voltado à formação de jovens associados. O comitê trabalha temas como oratória, desenvolvimento pessoal, mercado financeiro e cooperativismo.

O ponto de virada, para ela, veio na apresentação do TCC. Depois de anos com medo de falar em público, apresentou o trabalho com clareza e tirou nota 10. “Eu era muito envergonhada. Tinha vergonha de conversar com pessoas que eu não conhecia, de expor a minha opinião. Eu consegui me desenvolver muito, não só na parte de oratória, mas de saber me posicionar, dar minha opinião independente do local”. Hoje, Larissa lidera jovens de diferentes cidades da área de atuação da cooperativa, incluindo municípios menores como Nova Santa Bárbara, Nova Fátima e São Jerônimo da Serra. “O jovem representa a perenidade do cooperativismo. O cooperativismo vem muito daquela frase: eu não vou sozinho, nós vamos juntos", completa.
A trajetória também mudou a forma como ela enxerga Cornélio Procópio e o interior. Antes, sua expectativa era se formar e ir embora. “Minha perspectiva era fazer faculdade e ir embora daqui, porque eu nunca enxerguei a região com grandes oportunidades.” Com o tempo, passou a ver possibilidades de empreender, trabalhar remotamente, desenvolver projetos sociais e contribuir para a economia local permanecendo na cidade. “Hoje, dentro de Cornélio, eu me vejo como uma liderança voltada para o cooperativismo.”

Para Larissa, muitos jovens de cidades pequenas ainda carregam a ideia de que precisam sair para sobreviver. O trabalho do comitê busca mudar essa percepção. “A maioria dos jovens ainda está naquela visão antiga que eu tinha, de precisar sair. Não vê como oportunidade, mas como dificuldade.”
Ela afirma que, quando o jovem passa a reconhecer valor no território onde vive, também começa a enxergar formas de gerar riqueza local. “A própria cidade tem sua história, sua cultura. E dentro da cultura da cidade existem oportunidades, caso queira continuar ali, gerar riquezas e contribuir para o desenvolvimento da cidade.”
Rumo ao Norte
David Conchon lembra que a Europa levou mais de 100 anos para transformar pequenas comunidades em territórios organizados, produtivos e conectados. Para ele, o Brasil pode fazer o mesmo se começar agora. “A transformação não é nas coisas. É nas pessoas”, afirma.
No Norte Pioneiro, essa transformação aparece em uma salgaderia, em um carrinho de churros, em uma agrofloresta, em uma marca de café especial e em uma jovem que decidiu liderar sem ir embora.
Em uma região acostumada a ver moradores partirem, essas histórias sugerem outro caminho: pequenas cidades não precisam esperar mais um século para provar que ainda podem produzir futuro.


