No Japão, os nomes para a vida eterna custam muito
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quarta-feira, 05 de maio de 1999
por Joji Sakurai, da Associated Press (assinatura obrigatória) 
Tóquio (AE-AP) - É certo que tudo custa nesta vida, mas por acaso é necessário continuar pagando também depois da morte?
Os templos budistas do Japão são alvos de crescentes censuras pela prática de cobrar dos parentes dos falecidos elevadas tarifas pelos nomes que se impõem aos defuntos em seus funerais. A tradição é antiga e começou com nomes que eram conferidos somente aos monges budistas. Quando os templos começaram a outorgar nomes aos leigos, estes nomes passaram a ser algo como um sistema hierárquico que refletia as ações nobres dos falecidos. Mas agora a decisão se baseia quase que exclusivamente em dinheiro...em grandes quantidades.
A hierarquia máxima, chamada "ingo", custa em geral o equivalente a mais de US$ 8.300. Da média de US$ 5.300 que se paga em funerais na zona de Tóquio, cerca de US$ 3.300 vão para o nome póstumo. O preço do nome está incluído no custo de um funeral mediano, que pode chegar a US$ 20 mil, segundo a Associação Japonesa de Consumidores. Os devotos acreditam que os nomes póstumos ajudam os mortos a encontrar um lugar mais propício na vida eterna. Por isso, ninguém se atreve a economizar dinheiro nesta questão. "As organizações budistas dizem que as famílias exigem nomes caros, mas a responsabilidade pelos elevados custos é dos templos", disse Kunimitsu Kawamura, professor de religião na Universidade de Osaka. Tradicionalmente os templos budistas tinham apoio de contribuições dos fiéis. Mas a tendência à urbanização desde o fim da Segunda Guerra Mundial erodiu os vínculos entre os templos e suas comunidades, o que tornou os templos muito dependentes dos ganhos com os funerais.
As críticas pelo custo dos nomes póstumos são tão intensas que a Federação Budista Japonesa organizou uma série de reuniões para tratar de explicar a prática ao público. "Muitas críticas têm sido feitas", admitiu Yuko Nousu, um porta-voz da federação. "Não estamos pensando em abolir o sistema, e sim tratando de achar um modo de tornar o conceito mais compreensível". Fora os custos, crescem as queixas de que, apesar nos nomes terem como objetivo refletir a personalidade do falecido, os monges não consultam os parentes sobre a seleção do nome nem dão explicações depois que o escolhem. "O processo de seleção do nome é muito simples", explicou Kawamura. "Cada templo tem seu próprio manual".
A controvérsia sobre os nomes gerou críticas de que muitos dos templos budistas no Japão funcionam como empresas com o único objetivo de conseguir a maior quantia de dinheiro possível. Muitos templos deram início a negócios lucrativos como a administração de edifícios de apartamentos, estacionamentos e campos de golfe. Alguns introduziram atrações tecnológicas como máquinas de karaoke e serviços de Internet para atrair novos membros. Como a maioria dos templos passam de mãos de geração em geração, muita gente ingressa na vida monástica budista no Japão não por vocação, mas por obrigação familiar ou ambições materiais. "Somente recebendo incentivos como automóveis e artefatos eletrônicos para levar adiante o templo", disse Nobutaka Inoue, professor de religião da Universidade de Kokugakuin.
A sociedade japonesa é muito ambivalente em questões de religião. Apesar de em muitos lugares serem praticados os ritos para aplacar os espíritos dos familiares mortos, a maioria dos japoneses não adere estritamente a nenhuma religião em particular. As famílias somente celebram as bodas em santuários associados à religião vernácula do shintoísmo e efetuam os funerais em templos budistas. Muitos críticos se queixam de que o único papel significativo que têm os monges budistas no Japão é oficiar os funerais. "Não interessa à maioria dos monges budistas as questões religiosas", disse Kawamura. "A tendência atual é abandonar os funerais budistas caros, e por isso os monges podem em breve ter muito pouca coisa para fazer".


