No Dia dos Avós, carinho virtual para aplacar a saudade
Com as medidas restritivas de convívio, vovôs e vovós contam com a tecnologia para driblar o isolamento
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de julho de 2020
Com as medidas restritivas de convívio, vovôs e vovós contam com a tecnologia para driblar o isolamento
Vitor Struck - Grupo Folha 
“Vovó jovem”, a empresária londrinense Simone Vicentini, 45, não terá problemas em reunir a família neste domingo (26), data em que o Brasil e Portugal comemoram o Dia dos Avós. Mãe aos 18 e avó aos 43 anos, ela convive diariamente com as duas netas e conta que ter se tornado avó a fez redobrar os cuidados com a própria saúde visando a longevidade com qualidade de vida “para poder brincar bastante com as netas por muitos anos”, almeja.
A data especial antecede o Dia dos Pais, serve de termômetro para o comércio e será a primeira data comemorativa logo após do afrouxamento das medidas mais duras de combate à transmissão do coronavírus na Região Metropolitana de Londrina. Entretanto, o bom senso não deve ser deixado de lado pelas famílias na busca pela proteção dos idosos que, diferentemente dela, já estão em idades mais avançadas.

Hoje, Simone vê na neta de apenas um ano e meio traços da personalidade de Aurora, sua avó e tataravó da menina que recebeu o mesmo nome em forma de homenagem. “Ela vê a mãe dela, minha nora, amamentando a irmãzinha de apenas 30 dias e pergunta: mamãe, está tudo bem? É cuidadosa, muito amorosa”, alegra-se ao avaliar que os avós também são grandes "escultores" da personalidade dos netos.
NOVOS HÁBITOS
Chamadas de vídeo, ligações, presentes, conversas no portão de casa ou dos Institutos de Longa Permanência, os antigos “asilos”. Todas esses comportamentos que surgiram com a propagação da Covid-19 continuam valendo para proteger os principais membros do grupo de risco da doença. E após terem sido considerados teimosos por relutarem em mudar seus hábitos em grupo, muitos avós já demonstram terem aderido ao “novo normal” em busca de segurança.
De acordo com uma pesquisa feita com 557 pessoas que têm entre 60 e 100 anos, a ampla maioria (95,2%) demonstrou ter reduzido suas saídas de casa enquanto apenas 5,3% relataram sentir solidão. O levantamento foi feito pelo serviço de geriatria do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), InCor (Instituto do Coração) e pelo serviço de oncogeriatria do ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo).
Uma suposta sensação de que a pandemia teria dado uma “trégua” motivou até uma rede de televisão do Sul do País a lançar uma campanha de conscientização. “Eu queria muito te dar um abraço, vovó, mas o papai disse que ainda temos que esperar um pouquinho”, diz o menino pelo telefone à sua avó. A cena é comovente e abre o filme lançado nesta semana para marcar a data que ganhou um dia no calendário. Diferentemente do Dia das Mães e do Dia dos Pais, 26 de julho faz uma referência ao Dia de Sant´Ana e de São Joaquim, pais de Maria, portanto avós de Jesus, para os cristãos.
TECNOLOGIA
Religiosa, a moradora de Londrina Esfeli Gaklik Haussler, 76, mudou seus hábitos e hoje em dia já lida bem melhor com a tecnologia para matar a saudade dos nove netos, cinco deles moradores de cidades de Mato Grosso do Sul e Bahia. Embora seja categórica ao lembrar que nada é capaz de substituir um abraço. “AH, não dá não, mas a gente consegue, tem que levar a vida, não adianta ficar desesperado. Fico tranquila, vejo novelas, ando de bicicleta, monto quebra-cabeças. Estou com uma pilha aqui. Ontem acabei de montar um de 500, tem mais um de 1000 peças agora”, alegra-se.

Após o retorno da neta de um intercâmbio na Alemanha, o jeito foi aguardar por alguns dias o resultado de um teste para diagnosticar a Covid-19 antes do reencontro. "Meu filho mandou ela fazer o teste porque veio no avião com muita gente", lembra.
DADOS MUNICIPAIS
Sinônimos de sabedoria e harmonia para os filhos e netos, Simone e Esfeli consideram-se "abençoadas" por terem a família por perto, realidade muitas vezes contrária a de uma parcela significativa de idosos. Conforme apurou a reportagem com o Conselho Municipal do Idoso de Londrina, 12 mil senhores e senhoras moram sozinhos na cidade, segundo dados obtidos com a Secretaria Municipal de Assistência Social. Entretanto, estes são apenas os que necessitam dos serviços da rede pública de saúde, fazendo com que a estatística seja bem inferior à realidade.
“Alguns já não sabemos se saíram do cadastro, outros são idosos, mas não procuraram atendimento. Estes que têm autonomia e conhecem todas as regras do autocuidado não nos preocupam tanto. Agora, os que moram sozinhos sim. Um casal pedindo comida de dentro do apartamento ou da casa, já vimos acontecer em países como Suécia e Canadá que falecem em casa e a família nem fica sabendo”, lamenta o presidente do Conselho, Dario Vilar.


