Nigeriana pode ser apedrejada até a morte
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terça-feira, 19 de março de 2002
Fernando Fernández Flores France Press 
Paris - Safiya Husaini, uma camponesa analfabeta nigeriana de 35 anos, deve esperar até segunda-feira para saber se será ou não enterrada até o peito e apedrejada até morrer pena para o crime de adultério pelo qual é acusada. A decisão será tomada pela Corte Suprema do país
Enquanto isto, prosseguiam ontem as mostras de apoio a ela, vindas de todas as partes do mundo, numa tentativa de impedir a condenação à morte. Em Paris, 500 mil estudantes da Universidade da Sorbone firmaram uma petição dirigida à embaixada da Nigéria na França na qual solicitam a concessão do perdão à Safiya Husaini.
A Corte de Apelações de Sokoto (noroeste da Nigéria), que em outubro de 2001 decidiu condená-la à pena capital, está estudando um recurso apresentado.
Safiya recebeu a pena capital dia 9 de outubro de 2001 durante julgamento no tribunal islâmico de Sokoto, que levou em consideração o fato de ela ter dado à luz uma menina em fevereiro de 2001, depois de ter-se divorciado, o que configuraria adultério.
Num primeiro momento, Safiya alegou que havia sido violentada por um primo, de 60 anos, casado com outras duas mulheres. O homem foi posto imediatamente em liberdade quando jurou que não havia cometido a violação. Mas Safiya continuou condenada.
O estado de Sokoto, de maioria muçulmana é regido pela lei islâmica da Sharia (o que está escrito) e com base nisto, a mulher foi condenada à lapidação. Em recurso apresentado dia 14 de janeiro, a mulher se retratou de suas primeiras acusações e precisou que o pai da filha de Safiya era seu ex-marido, do qual havia se divorciado há dois anos.
Segundo a Sharia não é considerada adúltera a relação que uma mulher tenha com o ex-marido por pelo menos até seis anos depois da separação ou do divórcio.
Da mesma forma, o advogado de Safiya invocou o princípio de não retroatividade da lei, fazendo notar que o crime se consumou quando a Sharia ainda não estava em vigor no estado de Sokoto.
Antes os novos antecedentes, o juiz Muhammadu Bello Silane havia decidido adiar o processo até o dia 18 de março, mas a audiência acabou pendente para o dia 25 do mesmo mês.
Ao saber do novo adiamento, Safiya chorou, dizendo que era condenada por ser pobre e por vir de um povo pobre. Mas, ao mesmo tempo, confiante numa decisão judicial favorável, afirmou que voltaria a se casar com o ex-marido e pai de sua filha, porque ele a havia pedido.
O caso de Safiya Hussaini provocou numerosas mostras de apoio a seu favor em diversas partes do mundo. Os países da União Européia (UE), reunidos dias 14 e 15 em Barcelona (noroeste da Espanha) se declararam alarmados com o destino reservado à mulher e pediram à Nigéria que respeite os direitos humanos.
Já a Anistia Internacional (AI) anunciou ter recolhido 350.000 assinaturas na Espanha durante dez dias, em apoio a Safiya. A cidade de Nápoles, sul da Itália, decidiu declarar Safiya cidadã de honra, e a prefeita da cidade, Rosa Iervolino Russo, pediu a todas as mulheres apoio para esta iniciativa.
O ministro espanhol de Assuntos Exteriores, Josep Piqué, fez um apelo, em nome da União Européia (UE), a que se salve a nigeriana da morte, o que se constituiria em incrível crueldade.


