Rio, 11 (AE) - A nicotina é uma droga tão poderosa quanto o álcool e os entorpecentes e o fumante deve ser tratado da mesma forma que um viciado em drogas. A afirmação é do médico americano Richard Hurt, diretor do Centro de Dependência de Nicotina da Clínica Mayo e conhecido como uma das maiores autoridades internacionais no tratamento da dependência do tabaco. Hurt, que chegou hoje ao Rio para participar do 13º Congresso Brasileiro de Alcoolismo e Outras Dependências, foi enfático: "Temos de reconhecer que o fumo é um vício e deve receber um tratamento igual ao das outras drogas".
Segundo ele, o desenvolvimento de técnicas de tratamento como as dispensadas aos dependentes de drogas e álcool é a única forma de lutar contra as doenças decorrentes dos tabacos, entre os que já fumam. "Entre os que não fumam, a prevenção é o indicado, mas temos feito isso há muitos anos e não temos nos saído muito bem", reconheceu. Para Hurt, a indústria do fumo foi muito eficiente ao propagar a idéia de que o fumo é algo que se pode parar quando quiser. "Vejo na minha clínica pessoas tão dependentes da nicotina quanto outras são da cocaína", comparou.
O especialista diz que os fabricantes de cigarros conseguiram espalhar o conceito de que o fumo é uma questão de escolha pessoal. "Não é: trata-se de um problema de saúde pública", advertiu. "Nos Estados Unidos, 400 mil pessoas morrem por ano de doenças provocadas pelo tabaco, o equivalente a 3.747 desastres diários de avião sem sobreviventes". Adolescentes - Ele apontou que, quando a pessoa começa a fumar, na adolescência, ela não imagina estar adquirindo um vício. "Os adolescentes não escolhem ser viciados, eles escolhem fumar o primeiro cigarro", afirmou. Apesar da sistemática campanha contra o cigarro, o fato de as pessoas continuarem fumando é, para Hurt, fruto da forte pressão econômica da indústria. "Se não houvesse a questão do dinheiro por trás, as campanhas teriam surtido o mesmo efeito das sobre aids, que conseguiram reverter a curva de crescimento da doença", apontou. "Nos EUA, as indústrias gastam US$ 5 bilhões por ano só para promover seu produto".
Primeiro alvo do marketing do cigarro, os adolescentes também estão expostos à propaganda das bebidas alcóolicas. Para o psiquiatra americano Ken Winters, diretor do Centro para Abuso de Substâncias em Adolescentes da Universidade de Minnesota, as leis que estabelecem idades mínimas para o consumo de álcool ou que inibem a venda - como o decreto do prefeito do Rio, Luís Paulo Conde, que proíbe a venda de bebidas alcóolicas em postos de gasolina - podem ajudar a conter o problema.
Mas, advertiu Winters, nada disso substitui a responsabilidade dos pais. "Por mais que eu acredite que o governo pode ajudar com novas leis, isso não tira a responsabilidade dos pais de educar os jovens a consumir álcool de forma responsável", afirmou.

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