São Paulo, 26 (AE) - A primeira-dama de São Paulo, Nicéa Pitta, recebeu às 19 horas de sábado duas cartas anônimas com ameaças. Escritas em computador, com o mesmo teor, uma delas foi postada na Agência Central dos Correios e a outra na Sé, ambas no centro. Em seguida, ela deu queixa, de ameaça de morte, no 78º Distrito Policial, nos Jardins, na zona sul.
No boletim de ocorrência nº 1918/2000, registrado à 1h12 de hoje pelo delegado de plantão Eduardo Gobetti, consta que o suspeito do envio da carta é o empresário Jorge Yunes, presidente de honra do PPB e pivô dos empréstimos que causaram o afastamento do prefeito Celso Pitta (PTN).
Com medo, ela não quis ir à delegacia. "Era uma cilada", disse, numa entrevista por telefone dada de madrugada à AGÊNCIA ESTADO. "Eles queriam que eu fosse ao distrito." Eles, no caso, além de Yunes, seriam a cúpula malufista em São Paulo.
Para fugir do que imaginou ser uma armadilha, ela mandou um segurança registrar o boletim de ocorrência. "O linguajar da carta é dele", disse, novamente referindo-se a Jorge Yunes. A reportagem do Estado procurou o empresário em sua residência, mas funcionários informaram que ele estava viajando.
Em seguida, Nicéa lembrou o telefonema recebido logo após a primeira entrevista à Rede Globo. Ele foi dado num orelhão localizado na delegacia de Mauá, cidade do ABC. Neste caso, ela acusa Edevaldo Alves da Silva, ex-secretário do Governo de Paulo Maluf e Celso Pitta. Segundo ela, nas campanhas eleitorais de Maluf ele conheceu muitos delegados e prefeitos.
Mesmo lembrada de que Mauá é comandada por um prefeito do PT, Nicéa mantém a acusação. "Ele (Edevaldo) tem a estratégia da maldade."
As ameaças vão fazê-la parar de falar? "Imagina só, não vou dar mole", disse. "Eles estão temendo mais denúncias", afirmou, sempre lembrando que "eles" são os que, segundo ela, comandaram a Prefeitura de São Paulo nos quatro anos de governo Maluf e nos três da gestão Pitta. "Só vou me calar quando Deus quiser."
Nova York - O dia já estava raiando quando ela disse que já havia dormido, mas acordara achando que deveria ligar para o GRUPO ESTADO e contar sobre as ameaças. "Eu perdôo o ESTADO, que é o jornal que mais admiro." Nicéa pede novamente que o jornal desminta informações enviadas de Nova York sobre sua passagem pela cidade.
As reportagens informavam que Nicéa tinha viajado para Nova York depois de uma briga da filha, Roberta, com uma prima de Pitta, Raquel Moura, com quem dividia um apartamento.
Também revelava que Raquel, dona da empresa de consultoria Prime Investiments, localizada em Manhattan, cuidava de uma ou mais contas de Pitta no exterior. "Eu nunca disse isso ao Estado", afirmou Nicéa. "Não acho que ele seja tão burro para fazer isso (ter contas administradas pela prima)."
Ela confirma que Raquel e sua filha brigaram e isso a levou a Nova York. "Foi o vôo mais demorado da minha vida." Mas não quer revelar muitos detalhes do que ocorreu. Exceto que Pitta mandou a Raquel uma indenização, o que teria irritado ainda mais Roberta e Nicéa. "Quando eu falar exatamente o que aconteceu, vocês vão cair duros", disse, misteriosa.
Episódio - Nicéa e Roberta irritaram-se com o comportamento de Pitta, que, segundo ela, ligou três vezes para Nova York querendo saber se a filha havia se reconciliado com Raquel.
Segundo Nicéa, mais do que o processo de divórcio ou a recusa do marido de dar-lhe um cargo no governo, o episódio de Nova York foi o motivo decisivo para falar. "O que me levou a fazer as denúncias foi minha filha."
Ela disse que Roberta e Victor, o filho que confirmou no Ministério Público as denúncias que havia feito, estão bem. "Os dois me cobravam isso." Ainda sobre sua passagem por Nova York, ela critica o Estado e outros órgãos de imprensa que trouxeram entrevistas com o decorador que ela teria contratado para mobiliar o apartamento da filha. Segundo ele, Nicéa teria gasto mais de US$ 120 mil nos três meses que passou na cidade. "Investiguem quem ele é", limitou-se a dizer.
Sobre os acontecimentos dos últimos dias, ela afirmou que Pitta estava ganhando tempo para cassar a liminar (a entrevista foi dada horas antes da nova decisão da Justiça), mas isso de nada adiantará, pois ele perdeu a base de apoio. "Estes 34 vereadores que denunciei deveriam estar no Carandiru com o Viscome (Vicente Viscome, vereador cassado, que na verdade está preso numa delegacia)."
Nicéa é pessimista em relação a um futuro governo Régis de Oliveira (PMN), o vice que assumirá se Pitta for afastado ou cassado. "Ele não vai poder fazer muito, pois a base de apoio é a mesma." Que base? "A do Maluf, aquele que reconheceu a frase rouba, mas faz."
Exceção - E começa a disparar contra os secretários, que o vice disse que vai afastar. "Há uma exceção: Rodolfo Konder (da Cultura)", disse. Nicéa reflete um pouco e afirma: "Provavelmente tem mais alguém honesto." Em seguida, começa a criticar o deputado Marcos Cintra, presidente estadual do PL. Antes de terminar a entrevista, afirma que vai entregar mais documentos para a Procuradoria-Geral de Justiça.
O escrivão Thiago Oller de Castro, do 78º Distrito Policial, informou que poderá ser aberto inquérito para apurar a responsabilidade pelo envio das cartas. Esclareceu, no entanto, que a decisão cabe à delegada titular Nair Silva de Castro Andrade, que hoje tomará conhecimento do caso, com a entrega das cópias das duas cartas pelo delegado Gobetti.