Nicéa avisou amigo de que iria dar declaração prejudicando Pitta
Nicéa avisou amigo de que iria dar declaração prejudicando Pitta11/Mar, 0:42 Por Flávio Mello São Paulo, 10 (AE) - Há cerca de duas semanas, um amigo de Nicéa e Celso Pitta recebeu um telefonema da primeira-dama de São Paulo contando que iria falar e causar danos à imagem do prefeito. Cumpriu a promessa e confirmou uma previsão feita pelos próprios coordenadores da campanha de seu marido, em 1996: Nicéa ainda seria a protagonista de um dos maiores escândalos políticos da história da cidade. Os cuidados com a relação de Nicéa e a imprensa começaram a ser tomados no início da campanha. Ela não só se apaixonou pela idéia de tornar-se a primeira-dama da maior cidade do País como começou a exercer o poder antes mesmo de a eleição de Pitta ser confirmada nas urnas. Com a ajuda de amigas, conseguiu uma casa "emprestada", perto do Jockey Club de São Paulo, na zona oeste. De seu escritório montado no andar superior do sobrado de classe média alta, a então mulher de Celso Pitta comandava um pequeno grupo de mulheres numa espécie de "campanha alternativa". A maior parte dos dias era dedicada à conquista de novas adesões para o candidato do PPB e na liderança de caravanas pelos bairros da periferia. Conversava com donas de casa e líderes de movimentos sociais e tentava solucionar problemas imediatos, de olho nos votos em potencial. Em conversas reservadas, os coordenadores políticos da campanha de Pitta ridicularizavam as iniciativas de Nicéa e não escondiam a insatisfação quando o telefone do comitê central soava e ela exigia, aos gritos, uma explicação sobre o motivo que impedira o então candidato de comparecer ao compromisso que havia agendado por meio de seu comitê. À noite, Nicéa acompanhava o marido nos grandes comícios oficiais organizados pela equipe de mobilização - chefiada pelo empresário Calim Eid, conselheiro político de Paulo Maluf (PPB). Acompanhada pelos filhos Victor e Roberta, Nicéa agia como se nada tivesse ocorrido durante o dia. Precaução - Depois de acompanhar algumas entrevistas de Nicéa, os coordenadores da campanha decidiram mantê-la sobre controle. "O pessoal (da campanha) fica dizendo para eu tomar cuidado com jornalistas, que são perigosos, mas acho um grande exagero", disse Nicéa, certa vez. As precauções de nada adiantaram. Nicéa começou a prometer talvez o maior projeto social já realizado em São Paulo, caso o marido fosse eleito. A proposta era para lá de ambiciosa. Tratava-se da criação de um centro de reabilitação de crianças, que teria o tamanho do bairro de São Mateus, na zona leste. O problema era que na campanha oficial Pitta era comedido em suas promessas e seguia rigorosamente as recomendações de sua Assessoria de Imprensa e dos publicitários Nélson Biondi e Duda Mendonça, responsáveis pela estratégia de marketing da campanha. A ordem era repetir à exaustão a tese da continuidade administrativa, cujos alicerces eram o então Plano de Atendimento à Saúde (PAS) e o Projeto Cingapura. A entrevista aumentou as preocupações, porque poderia estimular ainda mais as cobranças ao prefeito. Pitta nem bem havia assumido a Prefeitura e Nicéa, nos Estados Unidos, cismou de encontrar-se com a primeira-dama daquele americana, Hillary Clinton. O motivo era nobre: propor aos EUA abrir mão de uma parte dos impostos cobrados sobre produtos consumidos por brasileiros no país para aplicá-los em programas sociais no Brasil. A então embaixatriz Lúcia Flecha de Lima ficou sabendo da história, explicou que seria melhor encaminhar a sugestão por meio do Itamaraty. Nicéa ficou contrariada. Concordou num primeiro momento, mas depois tentou utilizar o sambódromo para levar adiante seu plano social. Convocava reuniões com funcionários de segundo escalão à revelia dos próprios secretários, aos quais não poupava críticas quando estava a sós com Pitta. O prefeito manteve a situação inalterada, perdeu secretários por causa dessas intromissões e prosseguiu. Depois da campanha para o governo estadual, Nicéa acabou antecipando a separação entre seu marido e Maluf. Declarou publicamente ter votado em Mário Covas (PSDB) no segundo turno, revelou que o apelido do cachorro da família era Vereador - porque sempre exigia algo em troca para atender a um pedido de seus donos. Depois do que classificou de libertação, Nicéa convocou reuniões com praticamente todos os administradores regionais para determinar a instituição de árvores de Natal nos principais bairros da cidade. A ordem foi cumprida por quase todos e Pitta prestigiou as cerimônias de inauguração. Aos poucos, o prefeito começou a reduzir o espaço de Nicéa no governo municipal. E então, passou a ser alvo dos ataques frequentes e declarações constrangedoras da mulher. Crise conjugal - O desentendimento atingiu o ápice quando Nicéa realizava uma reunião no Centro de Apoio e Atendimento Social (Casa), para comunicar que assumiria o controle total da entidade. Pitta chegou naquele momento e apresentou a procuradora da Prefeitura que escolhera para ser a presidente executiva do Casa. Uma ex-assessora de Nicéa, que trabalha em outra unidade ligada à Prefeitura, contou que a sua ex-chefe reagiu com a seguinte frase: "Estou dormindo com o inimigo!". Como Pitta não recuou em sua decisão, a então primeira-dama de São Paulo começou a disparar contra o marido. Providenciaram uma viagem aos Estados Unidos para tirar Nicéa da cidade e afastá-la da imprensa. O motivo oficial divulgado foi um curso de inglês em Nova York. Nicéa voltou e continuou atacando o prefeito. Iniciou-se o processo de separação, Pitta manteve o sigilo absoluto sobre o assunto e contou até com a intervenção do amigo e empresário Jorge Yunes. Pitta e sua mulher ensaiaram uma reaproximação na casa de Yunes, mas o casal continuou separado. A situação piorou. O filho do casal, Victor, teria discutido com seu pai no gabinete do prefeito, no Palácio das Indústrias, há alguns dias. O motivo seria um pedido de dinheiro negado pelo pai. A suposta briga acabou virando fofoca na Câmara e deu mais munição para a bancada de oposição. A informação não foi confirmada. Um amigo em comum de Nicéa e Pitta disse que, antes de viajar para França, o prefeito teria comentado: "Gosto dela, mas ela quer interferir demais na Prefeitura". Segundo esse amigo, Pitta teria dito que o retorno era uma questão de tempo.





