Brasília, 28 (AE) - O secretário nomeado de Desenvolvimento Urbano, Ovídio de ¶ngelis, não convenceu sequer os integrantes da bancada governista de que não favoreceu o Estado de Goiás com a maior fatia de verbas para defesa civil enquanto ocupou a secretaria de Políticas Regionais. Em depoimento de mais de quatro horas à comissão representativa do Congresso, o secretário justificou: "Goiás foi mais eficiente", referindo-se à cobrança de verbas feita por prefeitos do Estado, pleiteando a liberação de recursos para obras de defesa civil.
O líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), reconheceu que Goiás foi agraciado com a maior parte dos recursos para obras de defesa civil, mas argumentou que as liberações foram legais, reafirmando a noção de "eficiência" dos prefeitos do Estado, defendida pelo secretário. "Parabéns, secretário, por ter olhado pelo seu Estado", disse Vieira. "Faz parte da tradição republicana os ministros beneficiarem sua terra natal e quem no exercício de cargo público não olha com carinho para questões de sua terra?", afirmou, acrescentando que, se fosse ministro, olharia "com muito carinho" para a Bahia.
O líder peemedebista disse que as explicações do secretário convenceram o presidente Fernando Henrique Cardoso a mantê-lo no cargo. Na segunda-feira, depois de ouvir o secretário no Palácio do Planalto, o presidente informou, por meio de seu porta-voz, que estava "satisfeito" com as explicações de Ovídio.
Após o depoimento do secretário no Congresso, o líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF), disse que os parlamentares com quem conversou tinham avaliações diferentes sobre o desempenho do secretário Ovídio de ¶ngelis. "Alguns se consideraram atendidos e outros não acharam as explicações convincentes", disse. Para o senador, parte das críticas feitas ao secretário deve-se a preconceito em relação à região Centro-Oeste do País. "Mas o que se refere a custo de obras ainda precisa ser analisado com mais profundidade e será investigado pelos órgãos próprios de controle interno", afirmou o senador.
De ¶ngelis, que permaneceu em pé durante todo o depoimento, não poupou elogios a si próprio ("sou um apóstolo da verdade") e ao governo federal ("que faz um trabalho extraordinário na área social"). O secretário foi firme na maioria das respostas - apesar de ter ignorado todas as perguntas da oposição, de quem partiu, na semana passada, a denúncia do favorecimento às prefeituras goianas.
De ¶ngelis usou números globais do orçamento - que inclui verbas específicas para a seca (DNOCS e Codevasf) e onde Goiás não está entre os mais beneficiados - para se defender. O secretário, contudo, não se referiu ao total direcionado para defesa civil, os quais, segundo dados divulgados por sua própria assessoria técnica, foram empenhados mais de R$ 51 milhões, sendo que a maior parte - R$ 24 milhões - foi para Goiânia. O segundo lugar ficou para a Paraíba, com R$ 9 milhões.
Apesar de não ter falado em números específicos da denúncia da oposição, De ¶ngelis admitiu que os recursos para defesa civil em Goiás foram "pulverizados para 79 municípios para obras de prevenção". A afirmativa de que a verba para defesa civil era preventiva provocou protestos da oposição à base governista. A senadora Marina Silva (PT-AC) se disse impressionada com a postura "moderna" do secretário em destinar verbas para prevenção de problemas no País. "Mas o que é necessário é ver onde não chegou a verba era urgente para remediar."
Um deputado da bancada governista, o tucano Rafael Guerra (MG), respondeu rápido à senadora. "Faz mais de cinco meses que aconteceu uma enchente na região do Vale do Rio Doce, desabrigando 75 mil pessoas e nada, nenhum centavo, foi liberado", afirmou. Sem jeito, o secretário disse que sua equipe deverá verificar por que ainda não houve a liberação da verba para a área em Minas Gerais.
A bancada goiana, para a qual a denúncia da oposição é "preconceito a Goiás", voltou a defender a Sudeco, órgão extinto de desenvolvimento do centro-oeste. "Essa denúncia vem para mostrar preconceito ao centro-oeste, que ainda é uma região em desenvolvimento e precisa de um órgão como esse", afirmou o senador Maguito Vilela (PMDB-GO).
A deputada goiana Lúcia Vânia (PSDB) aproveitou a deixa e afirmou que apresenta na próxima semana um projeto de lei para incluir "imediatamente" a região nordeste de Goiás no mapa das áreas semi-áridas do País e, consequentemente, arregimentar verbas do Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS).
De acordo com o deputado Geraldo Magela, a oposição está "absolutamente" insatisfeita com o depoimento do secretário. Na segunda-feira, a bancada oposicionista entra com um requerimento à secretaria de Ovídio para um mapeamento detalhado de cada empenho assinado pelo secretário com as prefeituras goianas. "Há verbas empenhadas para construção de 12 pontes em Goiás apenas nos últimos cinco dias de sua permanência oficial na secretaria (12 a 16 de julho)."

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