Newton Cruz faz revelações em livro
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sexta-feira, 16 de abril de 1999
Por Wilson Tosta 
O general da reserva Newton Cruz vai revelar, em livro de memórias, uma nova versão para o atentado do Riocentro, mais de 17 anos após o episódio. Segundo Cruz, as duas explosões naquela noite de 1981 - uma, na casa de força, outra, no Puma, em que morreu o sargento Guilherme do Rosário - foram provocadas por dois grupos militares que agiram independentemente um do outro e sem vínculos superiores. Todos teriam a mesma origem: o Destacamento de Operações de Informação/Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), órgão de repressão política.
Nunca houve aquela história de jogar bomba em 10 mil pessoas no show, disse, por telefone, de Brasília. O general afirmou que um major, cujo nome não revelou, soubera que integrantes do Doi-Codi queriam chamar atenção explodindo a bomba perto do espetáculo promovido pela oposição no Riocentro. O oficial, disse Cruz, mandou que os militares detonassem o petardo na casa de força, longe da multidão, para evitar feridos. Rosário e o capitão Wilson Machado não estavam na reunião em que a ordem foi dada e agiram em outro ponto, também longe do público. A explosão acidental matou o sargento e feriu o cúmplice dele.
No livro Cassado e Caçado por Amor à Pátria, Cruz pretende desmentir que tenha havido uma conspiração envolvendo integrantes da cúpula das Forças Armadas em Brasília para provocar um banho de sangue no Riocentro e levar a um fechamento político. O que aconteceu, de acordo com o general, foi uma ação isolada de grupos ligados à repressão política, que agiram por conta própria. Acho profundamente impatriótico pensar em abrir o caso Riocentro agora, disse. - Eles queriam apenas marcar presença, como marcaram outras vezes; quantas bombas foram jogadas em bancas de jornais, sem matar ninguém? Como outras histórias contadas no livro, o Riocentro surgirá a propósito das acusações que sofreu de ter vinculação com o episódio.
Cruz chegou a processar um jornalista que o acusou de, após o atentado, ter procurado o então presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo e assumido a responsabilidade pela explosão. Radicado na capital federal há cerca de dois meses para cuidar dos problemas de saúde da mulher, Lenir, Cruz tem dedicado-se a remexer os arquivos e a própria memória para reconstituir os principais acontecimentos da vida. Não quero fazer história, disse o militar, que afirma pretender, com as memórias, desmentir acusações mentirosas sofridas a partir do início dos anos 80. A idéia de fazer o livro surgiu em 1992, logo depois que ele foi absolvido da acusação de matar Alexandre Von Baumgarten, mas foi abandonada.
Retomei o trabalho há mais ou menos um mês, contou. Dos episódios narrados por Cruz, constará o da carta anônima enviada ao presidente Ernesto Geisel, em 1975, por grupos da linha-dura, ironicamente acusando o então futuro comandante militar do Planalto de ligações com a esquerda. Na época, Cruz era coronel e estava para ser promovido a general-de-brigada - a carta era uma tentativa de abortar a promoção.
Cruz vai reproduzir a mensagem e falar dos governos Geisel e Figueiredo - deste último, declara-se amigo e admirador. O Geisel governou com o AI-5 (Ato Institucional número 5); o Figueiredo já entrou sem ele. Cruz também quer desmentir as acusações de que teria participado de conspirações golpistas e atacado com chicote carros que participavam de um buzinaço em Brasília, em 25 de abril de 1984.
Naquela noite, era votada a emenda das Diretas-Já para presidente, e ele, então comandante militar do Planalto, executava medidas de emergência decretadas pelo governo. Teve um sujeito que escreveu que me viu jogando bomba em um colégio - afirmou. Viu coisa nenhuma! Quem esperar revelações sobre tortura, contudo, vai decepcionar-se com o livro. Não vou denunciar nada do que soube funcionalmente, afirmou. Jamais na minha vida vou faltar com a ética; um homem de informações também tem a sua ética.


