Paris, 28 (AE) - Se ainda estivesse vivo, o general Charles De Gaulle sem dúvida se sentiria traído por alguém de sua própria família. Para surpresa geral de toda a classe política francesa, Jean Marie Le Pen, principal dirigente da Frente Nacional, anunciou a lista de candidatos de seu partido de extrema direita para as eleições européias de 13 de junho e na qual surge como número um. Dessa relação faz parte numa posição de honra, número dois, o neto do general que tem o seu mesmo nome, Charles De Gaulle.
Ele manifesta sua identificação com as posições de Le Pen e não com as do movimento gaullista, o RPR, que apoia a construção européia, os tratados de Maastricht e de Amsterdã.
Da mesma forma, Charles De Gaulle, o neto, não apoiou a posição francesa na Guerra do Golfo (contra o Iraque) e não sustenta a atual: os ataques da OTAN contra a Iugoslávia, dos quais a França participa com sua aviação e navios de guerra.
Não se pode esquecer que a Frente Nacional de Le Pen é um partido ligado aos movimentos e partidos neonazistas alemães e europeus em geral. Desde o "racha" ocorrido recentemente entre Jean Marie Le Pen e Bruno Megret, a extrema direita está em declínio na França, perdendo peso eleitoral como anunciam as mais recentes pesquisas.
Tão logo a notícia de sua participação na lista da Frente Nacional foi anunciada, seu irmão, o deputado parisiense, Jean De Gaulle, reagiu deplorando sua adesão ao partido de Le Pen, não concordando com suas opções políticas.
Para os que conhecem esse Charles De Gaulle do fim do século, a decisão não chegou a constituir uma grande surpresa. Em 1994, ele participou da lista de candidatos às eleições européias liderada por Philippe de Villiers, político ideologicamente marcado pela direita católica conservadora, mas que jamais admitiu uma aliança com a extrema direita populista de Le Pen.
Hoje, justificando sua posição ao lado de Jean Marie Le Pen, o neto do herói francês do século, disse que há muitos anos não vota nos candidatos do partido gaullista, o RPR. A última vez que votou a favor do candidato Jacques Chirac foi no primeiro turno da eleição presidencial de 1981, imaginando, sem êxito, impedir a chegada do socialista François Mitterrand à Presidência da República. Desde essa época suas opções têm sido outras, não mais reconhecendo legitimidade no partido (RPR) e nos candidatos gaullistas.
Era preciso acabar com essa ambiguidade , disse o neto do general ao procurar explicar seu gesto que chocou toda a família gaullista francesa. O Charles de Gaulle da nova geração não escondeu um certo mal estar quando lhe perguntaram sobre como se sentia aliando-se aos grupos que mais combateram seu avô e chegaram a planejar atentados para assassiná-lo: "Apreendi a perdoar com meu avô. Há mais de 30 anos ele já os havia perdoado."

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