Bruxelas, 09 (AE-AP) - A Nestlé informou hoje (09) que suspendeu a produção temporariamente em duas fábricas na Bélgica. A decisão, motivada pela contaminação provocada pela dioxina, atinge as fábricas de Harmoire e Baasrode, que produz cereais para crianças e iogurte.
De acordo com o porta-voz da companhia, Marcel Rubin, a produção será retomada tão logo a Nestlé possa garantir que o leite usado não é proveniente de vacas que foram alimentadas com a ração contaminada pela dioxina. A empresa aguarda uma lista dos compradores da ração.
Hoje, a Europa enfrentou sua mais grave crise de alimentos registrada em muitos anos, com o número de fazendas da Bélgica potencialmente atingidas pela contaminação por dioxina aumentando e mais países apreendendo produtor belgas.
A Comissão Européia criticou a Bélgica por não ter adotado medidas de emergência banindo todos os produtos que pudessem estar contaminados, e divulgou uma declaração exigindo a adoção de providências.
"No momento não estamos satisfeitos com as medidas adotadas pelo governo belga," afirmou o porta-voz da Comissão, Gerry Kiely, durante uma breve conversa com os jornalistas.
A crise irrompeu há cerca de duas semanas, quando a Bélgica anunciou a detecção de altos níveis de substâncias químicas tóxicas em frangos e ovos. Depois disso a contaminação espalhou-se, atingindo a carne de porco, carne bovina e laticínios, o que abalou a confiança pública na segurança dos alimentos.
O número de fazendas potencialmente afetadas subiu para mais de 2.000, depois que as autoridades belgas informaram, hoje, que um número de granjas de galináceos maior do que se imaginava pode ter recebido rações contaminadas por gorduras contendo dioxina.
Ainda está sendo investigado como as gorduras foram contaminadas, mas soube-se, hoje, que três companhias alemãs foram inquiridas sobre os seus suprimentos.
A Comissão não excluiu a possibilidade de adoção de medidas legais contra a Bélgica, mas, segundo as normas da União Européia, o processo deverá ser longo.
Alguns laticínios, como leite e queijo, ainda são encontrados em grande quantidade na Bélgica, embora a Comissão tenha afirmado que as informações de que dispõe são insuficientes para garantir sua segurança. As vendas de manteiga foram totalmente proibidas pelas autoridades belgas, em caráter temporário.
O comissário europeu belga Karel Van Miert confirmou que a proibição temporária de venda deverá abranger também outros laticínios.
"A comissão confirma sua opinião de que...outros laticínios deveriam ser retirados do mercado enquanto não houver provas de que são seguros," declarou Van Miert à Rádio belga VRT.
A famosa indústria de chocolates do país também foi afetada pela preocupação dos consumidores com o leite. Algumas indústrias já reduziram sua produção e outras a suspenderam.
Peritos veterinários da UE deverão discutir a situação amanhã e depois, e na próxima semana.
Parceiros da Bélgica na UE queixam-se de não ter sido advertidos com antecedência suficiente, ou de não ter recebido informações sobre a crise envolvendo alimentos, que despertou o maior alerta em relação à saúde, na Europa, desde a doença da vaca louca.
O primeiro-ministro Jean-Luc Dehaene, da Bélgica, que enfrentará uma eleição geral domingo, considerou excessivas as exigências da UE.
Países da UE e outros reclamaram contra a falta de informações confiáveis e mantiveram a proibição de venda de produtos belgas. Alguns deles, inclusive os Estados Unidos, proibiram as importações de carne de porco e de frango, e de seus produtos derivados, de todos os países da UE.
Nações distantes como o Brasil e a Austrália proibiram a comercialização de produtos belgas nos respectivos territórios. A Holanda ordenou que os varejistas retirassem 519 produtos belgas de suas prateleiras. A Romênia e a Grécia anunciaram o confisco de 2.600 toneladas e 2.000 toneladas, respectivamente, de produtos belgas.
O governo belga enviou mensagem às embaixadas estrangeiras em Bruxelas pedindo desculpas pelo susto causado. "A Bélgica lamenta profundamente a preocupação causada aos consumidores do mundo inteiro", diz o texto.
O ministro da Agricultura Karl-Heinz Funke, da Alemanha, disse que proporá a adoção de controles mais rígidos sobre os alimentos, na reunião dos ministros da Agricutlura da UE, que se realizará em Luxemburgo nos dias 14 e 15.
Os ministros da Agricultura também poderão discutir a adoção de normas mais rígidas sobre o uso de carne e ossos nas rações animais, após o pedido da França de imposição de novos controles sobre esses produtos na UE, ou mesmo de sua proibição total.
"Não se pode alimentar animais herbívoros com carne, assim como não se deveria poder alimentar frangos com óleo lubrificante," declarou o ministro da Saúde Bernard Kouchner, da França ao Le Monde.
As únicas restrições que se aplicam a toda a Europa, atualmente, foram criadas após a crise da doença da vaca louca, em 1996, quando a UE proibiu que bovinos, ovelhas e cabras sejam alimentados com produtos derivados de mamíferos.

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