São Paulo, 28 (AE) - A poucas semanas do dia do desfile, os carnavalescos estão com os nervos à flor da pele. Com pouco dinheiro para os materiais, pouca mão-de-obra e a proximidade do desfile, a única coisa que sobra nos barracäes das escolas é trabalho. "Nesta época, fica todo mundo maluco", brinca Vaníria Nejelschi, carnavalesca da Nenê de Vila Matilde.
Dividida entre o barracão e a família, Vaníria protagonizou episódios curiosos nas últimas semanas. "Outro dia cheguei em casa tão cansada que acabei dormindo dentro do carro e fui acordada pelo meu marido."
Trabalhar no carnaval da Nenê significa ficar longe dos três filhos bem na época das férias escolares. "Procuro estar o mais presente possível, mas sei que é pouco."
A prioridade de Vaníria no momento é dar sua contribuição para levar a Nenê ao primeiro lugar. "A escola está investindo há cinco anos e se vencermos será um marco para o cinquentenário da Nenê."
E para levar o título, Vaníria e a equipe de 60 pessoas que trabalham no barracão estão "dando o sangue". No caso dela, isso inclui até dormir no barracão. "Já perdi 4 quilos e agora vou começar a emagrecer mais."
Enquanto ela, que já é magrinha, perde peso, o carioca Jerônimo Guimarães, carnavalesco da Acadêmicos do Tucuruvi, compensa o estresse com empadinhas, biscoitos e doces. "Minha boca fica nervosa e eu dano a engordar." O excesso de peso aparece na roupa apertada. "Só emagreço depois do carnaval."
Guimarães chega ao barracão às 8 horas e trabalha sem parar até a 1h30 do dia seguinte. "Enquanto tem uma pessoa trabalhando, eu também estou."
O esforço é para tirar a imagem negativa de última colocada do Grupo Especial do ano passado. "A Tucuruvi é uma sementinha que respeita as grandes, mas vai mostrar o seu potencial."
Ultimamente, o que tem o deixado Guimarães mais enlouquecido é a falta de mão-de-obra. "Aqui, ao contrário do Rio, as pessoas não têm tanto comprometimento com o trabalho de barracão."
Chilique - A falta de profissionalismo transforma o humor de José Maria Zolezzi, carnavalesco da Tom Maior, escola do grupo 1, que já esteve entre as grandes. "Não há pessoas dispostas a receber treinamento e, por isso, as escolas de São Paulo precisam trazer carnavalescos do Rio."
Criador de um carnaval que vai levar cerca de 2 mil pessoas para a avenida, Zolezzi trabalha com a mulher, Mariana, das 7 às 22 horas no ateliê, montado nos fundos de sua casa. "Tem dia que passa disso." No barracão, suas visitas são tensas. "Não dou chilique, mas fico muito irritado se as coisas estão atrasadas."
Para Chico Spinosa, caravalesco da Vai-Vai, campeã do ano passado, os dias antes do desfile são como um trabalho de parto prolongado. "Até nascer é muita ansiedade e sofrimento."
Para sobreviver à tensão, o carnavalesco procura concentrar-se no trabalho do barracão. "Se estou ansioso, procuro me ocupar."
Nas últimas semanas antes do desfile, Spinosa conta que seus "estouros" são frequentes. "Costumo dizer aos funcionários que não estou nervoso, sou nervoso por natureza", diz, bem-humorado.
Ao contrário da maioria das escolas, Spinosa não perde o sono por falta de dinheiro. Segundo ele, a Vai-Vai não está com problemas financeiros. "A escola trabalhou muito este ano", conta. "Estamos com dinheiro em caixa."

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