Nervosismo no mercado de câmbio ocorre por mudança no humor dos bancos
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segunda-feira, 09 de agosto de 1999
Por Vânia Cristino e Gustavo Freire 
Brasília, 10 (AE) - O nervosismo no mercado de câmbio verificado nos últimos dias tem sido provocado por uma mudança no humor dos bancos. A opinião foi externada em entrevista coletiva concedida hoje (10) à noite pelo diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC), Luiz Daniel Gleizer.
"Os bancos mudaram de vendidos para comprados. Estão preferindo dever menos em dólar e ter mais crédito a receber na moeda norte-americana", afirmou o diretor do BC. Apesar disso, ele não deu números sobre a posição do sistema como um todo. "O Figueiredo (Luiz Fernando Figueiredo, diretor de Política Monetária do BC) é que tem esses números", disse.
A alteração que tem elevado a taxa de câmbio nos últimos dias, segundo o dirigente do BC, foi alimentada por uma perspectiva de mercado de que as contas do setor público se deteriorarão.
"Deterioração que não virá", afirmou o diretor do BC. Ele acha que isto ficará claro para o mercado com a divulgação no final deste mês da proposta de Orçamento Geral da União do próximo ano.
"Estará escrito lá que o poder executivo e o poder legislativo estarão comprometidos com o cumprimento da meta de que o governo central alcançará um superávit primário de 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) prevista no acordo fechado com o Fundo Monetário Internacional (FMI)", afirmou.
O diretor acha que os ruídos vindos do cenário político também ajudaram a mudar o humor do mercado de câmbio. Apesar disso, ele acredita que, ao longo do tempo, este cenário de nervosismo deverá ser invertido com a divulgação constante e paulatina de informações positivas sobre as condições de condução da política econômica.
Gleizer também lembrou que o cenário político tende a ficar mais turbulento em momentos como o atual, quando o Congresso Nacional retoma as atividades depois de um período de recesso legislativo. "Isto tende a se reduzir depois", comentou.
Apesar do nervosismo do mercado, Gleizer afirmou aos jornalistas que o BC não usou o Banco do Brasil (BB) para intervir no câmbio e segurar a cotação do dólar. "Estes rumores de mercado não têm fundamento", disse.
O diretor chegou a lembrar que, nos últimos meses, o BC adotou uma série de medidas no sentido de dar uma maior transparência à sua atuação no mercado. "Nos comprometemos de informar ao mercado quando intervirmos", lembrou, referindo-se a uma decisão de divulgar a ocorrência destas intervenções por meio de comunicados colocados no Sistema de Informação do BC (Sisbacen) após o fechamento do mercado.
O diretor do BC afirmou também que não acredita que uma eventual crise financeira na Argentina e mesmo uma elevação dos juros norte-americanos venham a afetar a oferta de crédito externo para o Brasil e os demais países da América Latina. "A comunidade financeira internacional é capaz de diferenciar que tipo de risco está correndo", afirmou.
Na opinião de Gleizer, os bancos internacionais têm comitês de crédito capazes de perceber que não há risco de contágio de uma crise argentina, que o diretor considera pouco provável de ocorrer. A alta dos juros norte-americano, segundo o diretor do BC, já foi especificada pelo mercado. "Eles trabalham com a possibilidade de dois aumentos de juros de 0,25% ainda neste semestre", disse.
A confiança levou o BC a decidir não mais trabalhar num esquema em que solicitava formalmente aos bancos internacionais a manutenção do estoque de suas linhas de crédito comercial e interbancário nos mesmos níveis verficados em 28 de fevereiro deste ano. "Vão valer agora as regras de funcionamento do mercado", disse o diretor do BC.
A medida foi comunicada em nota divulgada no Brasil e em Nova York e mereceu do vice-presidente do Citigroup, William Rhodes, um comentário saudando a decisão. Segundo Rhodes, a melhoria da economia do país permtiu a volta do Brasil aos mercados internacionais até mesmo com a emissão de títulos da república brasileira no mercado em abril último.
Gleizer revelou números do estoque destas linhas comerciais e interbancário que revelam uma estabilidade ou mesmo um crescimento em relação posição de fevereiro. Os números globais, segundo o diretor do BC, demonstram que o estoque destas linhas foi dos US$ 37,8 bilhões para US$ 36,4 bilhões.
A aparente redução, de acordo com Gleizer, pode ser explicada porque neste total não estão incluídos os financiamentos para importação com prazo inferior a 360 dias. "Desde março, o BC autorizou que o prazo mínimo dos financiamentos às importações caísse de 360 para 90 dias", disse.
Ele disse que as estatísticas sobre o comportamento das importações pagas a vista e financiadas com prazo inferior a 360 dias corroboram sua tese de que o estoque destas linhas mantevesse igual ou um pouco superiror a posição verificada em 28 de fevereiro último.
"O percentual desta importações financiadas com prazo inferior a 360 dias e pagas a vista subiu de 70% em feveiro para 78% no final de julho", disse.
Ao mesmo tempo, o percentual das importações pagas a vista caiu de 35% para 28,5%. Diante deste número, o diretor de Assuntos Internacionais chegou a afirmar que a oferta de crédito não é mais atualmente um fator de restrição das exportações brasileira. "O que temos é uma queda no preço de nossas exportações e o comportamento abaixo do esperado das economias da Aladi", afirmou.


