''Nenhuma mulher quer abortar''
Do ponto de vista filosófico, o presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, José Eduardo Siqueira, destaca algumas correntes importantes.
A primeira é a dogmática, que diz ''isso é errado, é pecado e vamos punir''. ''Acho isso cruel. Vários trabalhos demostram que nenhuma mulher quer abortar e abortam por circunstâncias variáveis. Agora, você punir essa pessoa duas vezes? É dramático. Apesar dessa corrente dogmática ter, em princípio, a defesa da vida, na verdade está culpabilizando o vulnerável, que é a mulher''.
A outra linha filosófica, que impera principalmente nos Estados Unidos, é a liberal - ''tudo é possível, cada um faz o que quer, cada um é dono do seu corpo, cada ser humano tem autonomia para fazer o que quer''. ''Esse também tem um problema grave. Diante de uma gravidez, não se pode considerar simplesmente a autonomia da mulher, porque tem outro ser envolvido. Há que se ter cuidado nessa análise'', avalia.
Nos Estados Unidos, o que acontece na prática, é que o aborto é livre. ''Existe um movimento fortemente pró-vida, contra o aborto, pessoas que invadem clínicas, às vezes assassinam médicos. Por outro lado, tem os pró-aborto que fazem aborto por qualquer coisa. O que é um absoluto equívoco, aborto não é método anticoncepcional'', afirma Siqueira. No livro ''Freakonomics - o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta'' os americanos Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner chegam a vincular a prática do aborto a queda da criminalidade em seu país.
O terceiro grupo é o do processo deliberativo - ''cada caso é um caso''. ''Há que se deliberar. E isso significa que cada caso merece uma reflexão, considerando os valores morais dos pais, da equipe de saúde, o problema legal. Nossa lei é de 1940 e só na segunda metade do século 20 é que temos métodos para fazer diagnóstico, por exemplo, de uma criança anencefálica. No caso de uma anencefalia, tem que se deliberar com os pais. Se eles consideram que aquilo vai significar um sofrimento muito grande, eles tem o direito de interromper a gestação. Agora se quiserem continuar...''.
Existe ainda um outro grupo, uma tese polêmica do autor chileno Miguel Kottow, que foge das teses tradicionais do início da vida, a primeira, adotada pela maioria das religiões, de que começa na fertilização, e a outra, de que a vida começa no 14º dia, quando se tem o cordão neural. A tese que Kottow defende é que a vida começa só quando há o estabelecimento de vínculo de relação entre mãe e criança. ''É uma tese absolutamente polêmica e de difícil sustentação. Na minha opinião complicada, porque tira o valor moral do embrião e passa para a mãe'', opina Siqueira.
Feminista brasileira, Fátima de Oliveira, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), defende o aborto em quaisquer circunstâncias, dependendo exclusivamente da vontade da mulher. ''Ela defende a autonomia extrema. Eu não concordo com o raciocínio dela, mas ela tem um argumento curioso de que são os homens que fazem as leis e as mulheres não são ouvidas''.(C.P.)





