“A nossa sociedade está doente! Isso precisa acabar. Até quando isso vai persistir?”, questiona o pai da bailarina Maria Glória Poltronieri Borges, 25, encontrada morta no último domingo (26) em Mandaguari, Norte do Paraná. O corpo, com sinais de violência sexual, foi localizado em uma propriedade rural próximo a uma cachoeira.

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Mesmo diante do luto pela perda da filha, Maurício Borges se viu obrigado a buscar forças para defendê-la diante de argumentos lançados para culpar a própria vítima pelo assassinato. "Eu e minha esposa somos de famílias de mulheres fortes e isso fez com que eu, meus irmãos e todos os homens da nossa família fossem homens sensíveis à causa da mulher. Homens que desprezam o machismo, que acompanham as mulheres sempre lado a lado e as respeitam. Só que, mesmo com tudo isso e tendo essa percepção, eu nunca havia sentido na pele o que as mulheres no Brasil sentem. Foram demonstrações de como a situação da mulher no Brasil é precária, de como ela é desrespeitada, de como é tratada como um subgênero, como um objeto”, lamenta.

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| Foto: Folha Arte

O pai conta que Maria Glória, conhecida pelos amigos como Magó, possuía uma companhia de dança em parceria com a irmã. Além de professora de balé e universitária, a jovem fazia capoeira e sempre buscava o equilíbrio entre o corpo e a mente. “Ela tinha um trabalho espiritual muito forte focado nos elementos da natureza. Por esse motivo, ela foi aquele dia na cachoeira. (Na semana em que se comemora) o dia de São Sebastião e nas religiões de matriz africana, o dia de Oxóssi, que é o guardião das matas, ela foi até lá para rezar”, conta.

A jovem chegou à pousada na propriedade rural no sábado (25) onde pretendia acampar. Equipes da Defesa Civil faziam treinamento no local. A mãe e a irmã retornaram no domingo e começaram as buscas na mata assim que souberam do desaparecimento de Magó. O corpo foi encontrado pela irmã dela no início da tarde.

Enquanto aguardavam a chegada da polícia e dos investigadores, a mãe e a irmã da vítima ouviram e presenciaram as primeiras tentativas de responsabilizar Magó pela própria morte. Entre elas, o fato de ter ido sozinha ao local para acampar.

“Ela foi assassinada com um requinte de violência tão absurdo que revolta qualquer pessoa. Eu que estive no local onde ela faleceu, acompanhei a perícia feita pela Polícia Civil e pela Polícia Científica... Nos detalhes você via os requintes dessa barbárie. [...] A partir desse fato lastimável que aconteceu com a minha filha, vou tornar a defesa da mulher, a proteção da mulher e a igualdade da mulher como bandeiras da minha vida para que atos como esse não aconteçam mais”, frisa Maurício.

O crime é investigado pela Polícia Civil de Mandaguari com o apoio da Polícia Civil de Maringá. Dezenas de pessoas já prestaram depoimento. Ninguém havia sido preso até o início da tarde desta sexta-feira (31). A principal linha de investigação é o feminicídio. Segundo laudo do IML (Instituto Médico-Legal), a bailarina foi estrangulada. A polícia ainda aguarda resultados de exames para verificar se houve violência sexual.

O assassinato da bailarina mobilizou parentes, amigos e defensores dos direitos das mulheres em diversas cidades do Brasil. Atos de repúdio à violência contra a mulher serão realizados neste sábado nas cidades de Maringá, Curitiba, Campo Mourão, Florianópolis (SC) e Campo Grande (MS). Em Maringá, o protesto está marcado para 16 horas, na praça da prefeitura. Grupos, como a Frente Feminista de Londrina, também estão mobilizados em todo o País. Por aqui, uma reunião aberta está marcada para as 16 horas, no Zerão. Em São Paulo, Belo Horizonte (MG) e Itaparica (BA) os protestos serão realizados no dia 8 de fevereiro.

O feminicídio tornou-se uma qualificadora para o crime de homicídio cometido contra mulheres. A lei de março de 2015 estabelece que a pena pode ser agravada quando o assassinato envolve menosprezo ou discriminação à condição de mulher e violência doméstica e familiar. A pena varia de 12 a 30 anos de reclusão. A punição aumenta quando o crime ocorre na presença de parentes da vítima, quando a mulher é gestante ou foi morta três meses após o parto e quando o crime ocorre contra menores de 14 anos, maiores de 60 anos ou pessoas com deficiência.

Dados do Nupige (Núcleo de Promoção da Igualdade de Gênero) do Ministério Público do Paraná apontam crescimento de 60% na quantidade de inquéritos policiais abertos para apurar casos de feminicídio no Estado. Em 2015 (ano em que lei entrou em vigor) foram instaurados 129 inquéritos de feminicídio no Paraná. Em 2019, a quantidade saltou para 207. Só em janeiro deste ano, 16 investigações já foram iniciadas. Desde 2015, os promotores apresentaram 762 denúncias à Justiça e os números crescem a cada semana.

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| Foto: Gabriela Tornai/Divulgação

‘É UM ATO POR TODAS AS MULHERES’

A mobilização articulada a partir da morte da bailarina Maria Glória Poltronieri Borges conta com a participação de mais de 400 organizadores. A professora universitária e também bailarina Paula Marroni, uma das envolvidas no grupo, ressalta que a iniciativa ocorreu de forma espontânea.

“É um grupo de mulheres e de homens indignados com a violência sofrida pelas mulheres. Nosso foco é combater esses crimes. É um ato pela vida de todas as mulheres, cis e trans, independente da raça e da classe social. Nosso objetivo não é separar e nem excluir, é agregar. Somos todas sobreviventes”, afirma Marroni. Ela frisa que a mobilização é apartidária.

O evento criado nas redes sociais com o título ‘Nenhuma a menos – Ato de repúdio ao feminicídio’ teve a confirmação de mais de 2.700 participantes em Maringá até o início da tarde desta sexta-feira.

“Decidimos não nos calar mais. Semana passada ocorreu outro feminicídio aqui na região. Nunca tivemos uma morte assim tão seguida da outra. Parece que quanto mais o tempo passa, mais curto fica o espaço de tempo entre os casos de violência contra a mulher”, destaca a designer e artista maringaense Gabriela Tornai, que também participa do grupo.

A designer foi a responsável por elaborar o cartaz do ato de repúdio que lembra a morte de 37 mulheres na região de Maringá nos últimos seis meses. Conforme o grupo, a cada duas horas, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil. “Essa onda de violência precisa parar. Eu mesma já me calei. Fui abusada sexualmente na infância. Fiquei muito mal com a notícia da Magó e resolvi colocar tudo para fora através da arte. Me inspirei no livro ‘Mulheres que correm com os lobos’, da autora Clarissa Pinkola Estés. A mulher selvagem tem o seu próprio instinto e se defende.”

MUDANÇA CULTURAL

Estatísticas diversas e a subnotificação de casos de feminicídio no Brasil ainda desafiam o combate à violência contra as mulheres. Para a coordenadora do Núcleo Maria da Penha da UEM (Universidade Estadual de Maringá), Crishna Correa, é preciso haver uma mudança cultural, integração entre os setores e investimentos para reunir as estatísticas sobre o tema.

“Sempre lamentamos muito que as mulheres ainda estejam sendo assassinadas e esperamos que pelo menos a morte dessas mulheres chamem a atenção do Estado para a necessidade de que nós precisamos trabalhar muito mais no eixo preventivo dessa violência. Apesar da gente ter, desde 2006, a Lei Maria da Penha para tratar da violência doméstica, apesar de a gente ter, desde 2015, a lei do feminicídio, apesar da gente ter a Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres há alguns anos, a gente não pode dizer que as mulheres têm uma liberdade efetiva. As mulheres são mortas quando terminam relacionamentos, quando caminham sozinhas, enfim, de diversas formas, em diversos lugares”, destaca.

Correa aposta na educação e no debate aberto para uma possível mudança cultural. “Nós precisamos discutir tanto na educação familiar, dentro de casa, quanto na educação escolar por quais motivos as mulheres são mortas, por que o machismo existe, por que o machismo é uma questão estrutural na nossa sociedade, por que as pessoas pensam que o corpo da mulher é um corpo à disposição dos homens”, frisa. A coordenadora do núcleo ressalta ainda que os investimentos precisam ser aplicados para estruturar o atendimento às vítimas de agressão.

“Vemos, cotidianamente, as mulheres sendo culpadas pelas agressões que sofreram. Justificativas como a mulher não estava no lugar certo ou não estava se comportando como essa lógica machista acha que ela deveria se comportar que é presa dentro de casa, evitando estar sozinha. Tudo isso é uma agressão absoluta a nossa liberdade de expressão”, finaliza. Denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas por meio do telefone 180 em todo o País.

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