Nenhum dos dois candidatos é um entusiasta do Mercosul
Montevidéu, 27 (AE) - A eleição de Tabaré Vázquez poderia resultar num presidente uruguaio menos desanimado com o Mercosul do que a de Jorge Batlle. O colorado, candidato a presidente pela quinta vez, já manifestou certo desalento perante a integração, preferindo que o Uruguai, a antiga "Suíça da América do Sul", estreite seus laços com os países ricos da Europa, exportando-lhes seus cavalos de raça, trigo e leite, e não tenha o destino atado a um país como o Brasil, visto como instável e corrupto.
Não que Tabaré seja um entusiasta do Mercosul. "Ninguém sabe, nem Tabaré, o que acontecerá em relação ao Mercosul se ele vencer", assegura o sociólogo Gerónimo de Sierra, cotado para ser nada menos do que chanceler, se Tabaré for eleito. "Quando lhe perguntaram se preferiria integração mais rápida ou mais lenta, não ficou claro." Pelo perfil do esquerdista, adianta Sierra, cauteloso, "ele deverá defender iniciativas sociais do bloco, e não apenas econômicas e políticas, e também mais espaço para o Uruguai".
Em qualquer caso, como reconhece o próprio sociólogo, "o Uruguai, como país pequeno, não pode ter a pretensão de ser muito ouvido no Mercosul". Além disso, "ninguém no Uruguai se atreveria a sair do Mercosul". O sociólogo, que estuda justamente a integração, desenha a seguinte escala: sem o Mercosul, o Brasil seria prejudicado, porém menos do que a Argentina, que, por sua vez, perderia menos do que o Uruguai.
Internamente, o perfil mais à esquerda de Tabaré também não pressupõe mudança radical na economia. O candidato da Frente Ampla, como o próprio nome indica, lidera uma coalizão de grupos que abriga de moderados até os ex-guerrilheiros Tupamaros, que tiveram dois de seus líderes, José Mujica e Eleuterio Fernández Huidobro, eleitos senadores no dia 31.
Entretanto, Tabaré declara-se comprometido com a estabilidade monetária e a ortodoxia fiscal que a sustenta. Depois do primeiro turno, ao sair em busca do voto conservador blanco, Tabaré declarou: "Se alguém votou em nós pensando que tudo vai mudar no dia 2 de março (data da posse), é melhor que não vote mais."
A mudança econômica mais importante prevista no programa da Frente Ampla é a introdução do imposto de renda para pessoa física, no lugar do Imposto de Retribuições Pessoais, que incide apenas sobre assalariados, aposentados e profissionais liberais. A reforma prevê, ainda, a taxação da herança e da terra, com redução, em contrapartida, do imposto sobre valor agregado, considerado "regressivo".
O debate eleitoral girou em torno dessa questão sensível. Batlle argumenta que "o país não está em condições de resistir a mais tributos" e declara o Plano de Emergência, pacote de medidas sociais proposto por Tabaré, uma ameaça ao equilíbrio fiscal.
O candidato, do mesmo partido do presidente Julio María Sanguinetti, explora o tradicional conservadorismo dos uruguaios, prometendo "mais do mesmo". Amanhã se saberá até onde vai o anseio de mudança dos uruguaios. (L.S.)





