Nem todos os pobres são iguais
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quarta-feira, 04 de agosto de 1999
Por Zoraida Portillo, da IPS 
Lima, 05 (AE-IPS) - Os governos dos países em desenvolvimento como os da América Latina gastam grandes somas de dinheiro em programas de alívio à pobreza, geralmente infrutíferos, enquanto cada vez mais especialistas assinalam o erro de considerar que todos os pobres são iguais.
A representante do Peru no Programa das nações Unidas para o Desenvolvimento, Kim Bolduc, deu um claro exemplo dessa diferenciação quando apresentou à imprensa o Estudo Mundial sobre Desenvolvimento Humano.
Na oportunidade, Bolduc perguntou aos jornalistas que possibilidades são oferecidas pelo mundo globalizado a uma mulher maior de 35 anos que vive no campo, é analfabeta, não tem salário fixo e fala quechua (língua indígena), em contraposição a mulheres com a mesma renda, mas instruídas, que vivem nas cidades e falam espanhol.
Embora as duas sejam consideradas pobres, de acordo com os indicadores, a segunda está em melhores condições que a primeira.
"Ao analisarmos outras variáveis da pobreza, como emprego, saúde, moradia e educação, entramos inevitavelmente em um tema muito mais amplo que a exclusão social", disse o economista Carlos Figueroa, do Centro de Pesquisa da Universidade do Pacífico, uma instituição privada peruana.
A Universidade do Pacífico é uma das entidades que lutam por uma mudança nos mecanismos de medição de pobreza. Com esse fim, reuniu mais de uma centena de pesquisadores, acadêmicos e especialistas internacionais em um fórum para analisar a pobreza e a desigualdade na América Latina.
Durante o debate, os participantes reconheceram a carência de ferramentas de medição para identificar os mais pobres e suas necessidades, e a falta de consulta direta com as populações pobres para se conhecer a efetividade dos programas de alívio da pobreza.
Se não se contar com estatísticas confiáveis, métodos de consulta direta à população, nem sólidos instrumentos de informação e avaliação, não será possível determinar o impacto real dos programas de alívio ou se esses chagam à população que realmente necessitam deles, afirmam os especialistas.
Para Figueroa, um bom ponto de partida ao elaborar tais programas é reconhecer que nem todos os pobres são igualmente pobres. Ele sugere enfocar o problema em outra dimensão, a da própria perspectiva da pobreza.
"Um pobre sabe reconhecer a diferença que existe entre ele e seu vizinho", afirmou Figueroa. "Com esse método é possível descobrir o que eles pensam e o que realmente necessitam. Desse modo, será melhor encaminhado o gasto e será possível diminuir a brecha entre os que precisam de determinados recursos e os que não, que na atualidade são divididos indiscriminadamente entre todos os pobres", disse.
Segundo o Banco Mundial, outro participante da reunião, 45% dos latino-americanos padecem de algum grau de pobreza, pois recebem o equivalente a um dólar por dia. Enquanto isso, os 5% mais ricos recebem 50% dos investimentos totais da região.
Outro assunto vinculado à pobreza é a iniquidade ou injusta distribuição da riqueza, que, de acordo com o PNUD, aprofundou-se ao invés de melhorar.
"Na última década, presenciamos um aumento na concentração do investimento, dos recursos e da riqueza entre pessoas, empresas e países", segundo o último Estudo sobre Desenvolvimento Humano anual, elaborado pelas Nações Unidas.
O PNUD calculou a proporção entre os investimentos da quinta parte da população mundial que vive nos países mais ricos e da quinta parte que vive nos mais pobres em 74 para um, enquanto que sete anos antes, em 90, era de 60 para um.
Ao mesmo tempo, os níveis de desigualdade observados na América Latina são muito maiores que os registrados em países com similares níveis de investimentos.
Brasil, Chile e México são os que ostentam os níveis mais exagerados de desigualdade, segundo os especialistas que participaram da reunião na Universidade do Pacífico.


