Indaiatuba - Os negros exigem mais espaço na Igreja. ''Marginalizados na sociedade, embora sejamos 49,4% da população brasileira, queremos ser sujeitos e protagonistas na comunidade católica'', disse o bispo de Paranaguá, d. João Alves dos Santos, responsável pela Pastoral Afro-Brasileira na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
O maior desafio que a Pastoral Afro-brasileira enfrenta, segundo d. Alves - um dos 12 bispos negros entre mais os 420 membros do episcopado -, é fazer com que os afrodescendentes assumam suas raízes, ''inclusive na hierarquia''. Dos 18 mil padres do clero brasileiro, pouco mais de mil são negros. Um relatório apresentado no plenário da 46 Assembléia Geral da CNBB atribui a falta de vocações à posição adotada pela Igreja diante da escravidão.
''As justificativas da escravidão de origem filosófica, biológica e até mesmo teológica geraram uma orientação preconceituosa e discriminatória em relação à cultura dos povos oriundos da África'', afirma o texto da Pastoral Afro. ''A Igreja não o questionou (o projeto colonial escravagista) de uma forma incisiva e, em diversas situações, compactuou com a escravidão'', acrescenta.
Segundo o texto, ''ser negro e ser católico não é visto como contradição, mas como enriquecimento e compromisso cristão'', como prova à contribuição que os afro-brasileiros vem dando à Igreja desde a década de 1980, quando a condição do negro foi tema da Campanha da Fraternidade, em 1988, no centenário da Abolição da Escravatura.
''Ainda temos problemas, mas já demos passos importantes para a maior participação do negro na vida da Igreja'', disse d. Alves. Como padre e depois como bispo, ele ainda é vítima de preconceitos e discriminação, ''fruto da cultura de um racismo velado que existe no Brasil''. Algumas dioceses, admitiu d. Alves, ainda resistem à implantação da Pastoral Afro-brasileira.
É um equívoco, na opinião do arcebispo de Ribeirão Preto (SP), d. Joviano de Lima Júnior, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia da CNBB. Palavras, gestos, cantos e instrumentos adotados pelos negros nas celebrações são símbolos válidos para o culto, disse o arcebispo em apoio aos ritos inspirados na tradição e na cultura afro-brasileira.
Ao falar sobre o sistema de cotas nas universidades, d. Alves afirmou que ele é um passo, mas não resolve. ''Queremos ter acesso ao trabalho e à escola em pé de igualdade, para participar do poder de decisão política, da cultura e de outros bens'', disse o bispo de Paranaguá. Ele distribuiu no plenário da Assembléia dados de uma pesquisa feita em 2005 pelo IBGE, segundo os quais os negros representam 64% da população de baixa renda.

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