Negros precisam de um projeto
Sendo um país cristão, o Brasil pratica a exclusão dos negrosMuleka trabalhou como assessor de um ministério de Mobutu. O apoio que o professor dá ao novo governo pode parecer, à primeira vista, um tanto contraditório. Muleka, porém, tem uma visão dialética do mobutismo. Considerado sinônimo de tudo o que há de ruim em um governo - corrupção, ditadura, benefício com as guerras tribais e manutenção da miséria do país, com péssimos índices sociais e econômicos (taxa de mortalidade:10.8%, expectativa de vida: 46.7 anos, salário médio: de 5 a 100 dólares) -, na opinião do professor, Mobutu também desempenhou um papel importante para o Zaire: Temos que situá-lo dentro do contexto histórico do meu país.
O professor relata o que aconteceu depois do golpe de Estado que levou Mobutu ao poder, em 1965. Ele diz que o ex-presidente criou uma consciência nacional, contribuindo para a minimização dos conflitos tribais. Do ponto de vista cultural, Mobutu teria lutado pela recuperação da dignidade da mulher, não permitindo, por exemplo, que elas usassem roupas como as das européias, que exibiriam virtualmente suas partes íntimas.
Segundo Muleka, de 1965 até 1973 o país cresceu e a política do presidente era boa, do ponto de vista econômico e social. O Zaire era o terceiro país com maior produção de cobre do mundo. Quando o preço do petróleo subiu, em 73, o do cobre caiu. Houve uma defasagem e o país não tinha mais condições financeiras para resolver os problemas sociais. Desde então, Mobutu passou a ser visto como ladrão.
É nesse contexto que existia o Ministério de Desenvolvimento Rural, afirma o ex-assessor. Segundo Muleka, o Ministério era encarregado de desenvolver condições para a melhoria social do povo: O princípio era o seguinte: não há desenvolvimento sem tomada de consciência, e não pode haver consciência sem comunicação, defende o jornalista. Então, foi instalado um programa de comunicação rural para ajudar o povo na conscientização para o desenvolvimento. Para que pudesse, por exemplo, aceitar sem traumas as inovações tecnológicas, que às vezes enfrentam uma resistência cultural. Essa era a minha tarefa.
A respeito do trabalho na Rádio Televisão Nacional do Congo, o professor diz que não havia uma censura declarada, mas uma auto-censura: O Zaire tinha uma política totalitária, um só governo, um só partido político, uma só ideologia. Logo, a censura era através de um engajamento político-ideológico obrigatório, uma auto-censura. Na verdade, em uma ditadura você não pode falar em democracia, em liberdade. Se há confronto, você é eliminado.
Muito distante do Vivendas do Arvoredo, onde a esposa, também zairense, serve um café bem brasileiro, Muleka fala sobre uma das coisas com que não se acostumou no Brasil: a existência de racistas em um país onde 47% da população é de origem cultural africana.
Tenho dificuldade de entender porque, sendo um país cristão, o Brasil pratica a exclusão dos negros e o ódio contra outras raças. Muitos brasileiros brancos pertencem às religiões de origem africana, como o candomblé e a umbanda. A religião africana ensina a sociabilidade. Como explicar, então, que os brancos discriminam os negros, que são seus mestres espirituais? Como explicar que se pratica o ódio sem guerra declarada e que a religiosidade africana não tem nenhum impacto sobre o comportamento social dos brasileiros?
Muleka não acredita na existência de uma comunidade negra no Brasil, que tenha um projeto coletivo para o auto-desenvolvimento. Vejo que os negros brasileiros só se juntam para chorar e gritar contra o racismo no dia 13 de maio e no dia 20 de novembro de cada ano (Abolição da Escravatura e Dia Nacional da Consciência Negra, respectivamente). Qual o projeto que eles têm para o futuro?
O professor questiona uma contradição brasileira: a existência de racistas sem racismo instituído. O racismo deve ser entendido em dois sentidos: como sistema de leis que admitem a superioridade de umas raças sobre outras e como, simplesmente, falta de amor para com outras raças. De um lado, temos as leis, de outro, algo subjetivo, difícil de ser controlado. A distinção entre essas duas definições ajuda a entender o que acontece no Brasil. Não há leis que admitam a segregação racial, mas há racistas no país. Ao meu ver, ao invés de passar a vida toda se queixando do racismo, os negros brasileiros deveriam reconhecer a impossibilidade de controlar as tendências psicológicas, e partir para a procura do espaço legal e jurídico que as leis brasileiras abrem para que os negros se organizem e se desenvolvam.
Ele sugere que os negros brasileiros criem, por exemplo, cooperativas de crédito: Se a metade dos 70 milhões de afro-descendentes pudesse contribuir com R$ 1,00 por ano, isso daria em torno de R$ 35 milhões, o suficiente para construir escolas e creches, não só para os negros, mas também para os brancos que vivem em condições miseráveis. Muleka acredita que, enquanto não se fizer isso, não haverá uma comunidade negra no Brasil, mas um grupo de descontentes que, de vez em quando, se reúnem para lembrar Zumbi dos Palmares.





