Negros americanos recolonizam, com sucesso, uma cidade deserta em Israel
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000
Por Natalie Y. Moore 
Dimona, Israel (AE-AP) - Sob a luz do candelabro do serviço de Shabat, os fiéis movem-se para frente e para trás, batendo palmas e cantando hinos religiosos em hebraico e inglês. "Você se sente bem nesta noite de Shabat", canta alto uma mulher. "Sim", responde a congregação em hebraico com um sotaque do sul dos Estados Unidos. O serviço, muito mais um encontro batista do que um serviço de Shabat judaico, é realizado no "Reino de Yah", uma comunidade de negros norte-americanos que instalou-se em Dimona, cidade em desenvolvimento, ao sul do deserto de Negev.
Trinta anos se passaram desde que os 39 primeiros peregrinos, comandados pelo motorista de ônibus de Chicago Ben Ammi, chegaram à Terra Santa. Hoje, são 2.500. Eles se auto-denominam israelitas hebreus, mas são conhecidos em Israel como os hebreus negros.
Apesar do turbulento, em geral hostil, relacionamento com as autoridades israelenses, a comunidade prosperou como um expandido centro de absorção de imigrantes e até mesmo conquistou algum invejável reconhecimento.
Os membros, que referem-se à sua área como "kfar", palavra hebraica para vila, produzem e vendem sorvete de tofu, cultivam sua própria comida e costuram suas próprias roupas. Os cantores do coral da comunidade religiosa são procurados para performances. Dois hebreus negros fazem parte da banda Eden, composta por quatro integrantes, que representou Israel na maior competição européia de música no ano passado.
Sentado no centro do kfar sob sol cintilante do deserto e vestindo um longo robe de linho, o membro da comunidade Ohmahn Ben Eliazer diz que está feliz por ter chegado a Israel em 1978. Ele diz que a maior realização da comunidade foi formar uma nova geração, longe do legado americano de racismo e de violência.
"Meu filho acabou de fazer 17 anos e nunca foi discriminado por seus amigos", diz Ben Eliazer, referindo-se às gangues que provocam mortes nos centros das grandes cidades americanas.
O fundador do movimento, Ammi, acreditava que os negros norte-americanos descendiam da tribo israelita perdida de Judah. Ele disse que eles migraram para o oeste da áfrica depois da destruição do Templo Judaico em Jerusalém no ano de 70 a.C. e foram finalmente vendidos como escravos para os EUA.
Em 1996, Ammi começou a reunir residentes dos guetos de Chicago e nas vizinhanças e os liderou até a Libéria, no oeste da áfrica. Eles se mudaram para Israel em 1969 em busca de um sentido de identidade que não encontraram na América. "Eu nunca lamentei a visão que me fez partir", diz Mocksheriel Ben Yehuda
que deixou os EUA há 25 anos.
Quando os hebreus israelenses chegaram a Israel, foram enviados para o programa de moradia em Dimona, um local de adaptação para imigrantes no sul do país. O governo de Israel não sabia o que fazer com os recém-chegados que adotaram nomes hebraicos e um estilo de vestir do oeste da áfrica e disseram que eles não eram nem judeus nem cristãos. Com o passar dos anos eles foram ridicularizados como ritualistas e "kushis", termo depreciativo em hebraico para negro.
Enquanto alguns dos judeus israelitas conquistaram avanços, os empregos disponíveis não passam de trabalhos domésticos ou venda de incenso nas esquinas de Tel Aviv. Eles não foram qualificados para receber cidadania israelense pela Lei do Retorno, que concede aos judeus cidadania automática, e alguns deles foram deportados.
As relações entre o governo e a comunidade melhoraram lentamente. Em 1980, o governo deu aos hebreus israelitas o abandonado centro de concentração com a condição de que eles o reabilitassem.
Em acordo firmado em 1990, os membros da comunidade receberam permissão para ficar indefinidamente, contanto que a imigração de mais negros dos EUA chegasse ao fim. Alguns anos atrás, os judeus israelitas receberam residência permanente, mas não cidadania. Uma escola pública paras as crianças da comunidade foi aberta em frente ao prédio do centro de imigrantes em 1992.
A vila é bastante populosa: cinco ou seis famílias geralmente partilham o mesmo apartamento. As crianças fazem suas refeições juntas na lanchonete do kfar. Os residentes são vegetarianos e o fumo é mal visto.
Apesar da poligamia ser permitida, Ammi, o fundador tem quatro esposas, não há promiscuidade. Os israelenses hebreus dizem que escolheram um modo de vida dedicado ao serviço de Yah, ou Deus. Eles dirigem-se uns aos outros como "santo".
Muitos da comunidade dizem que não têm vontade de voltar aos EUA e que o movimento de libertação negra naquele país não deu certo. "Nós experimentamos economia, religião, política, e tudo isso não passa de ilusão", diz Hacomliel Hacohen, um dos 17 sacerdotes da comunidade.
As primeiras crianças nascidas em Israel chegaram à maturidade. Elas falam hebraico fluentemente, embora com forte sotaque americano. Algumas chegaram à Universidade. Todas estão prontas para a cidadania israelense, se lhes for um dia oferecida, incluindo o serviço militar obrigatório para todos os cidadãos.
Os jovens afirmam que há poucas chances de deixar a comunidade. Yovalla Baht Israel, 21 anos, que estuda para concluir o segundo grau da escola israelense, nunca esteve nos Estados Unidos.
"Isso é o que eu conheço", diz Bath Israel, que cresceu numa casa com seus pais e as outras duas esposas de seu pai. "O estilo de vida é algo que eu jamais abandonaria. É uma vida maravilhosa."


