Negociadores da Rio+10 não entram em acordo
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sexta-feira, 30 de agosto de 2002
Beatriz Lecumberri<br> France Presse 
Johannesburgo - Quatro dias depois da inauguração da Cúpula da Terra de Johannesburgo, negociadores e ministros admitiram ontem que os debates ainda estão num beco sem saída, e que o tão falado desenvolvimento sustentável continua sendo uma maravilhosa utopia.
Faltam apenas dois dias para a chegada de mais de cem chefes de estado e de governo, e o sentimento de urgência só faz aumentar. Os negociadores, alguns trancafiados no centro de convenções de Sandton de Johannesburgo há uma semana, tentam evitar o rotundo e escandaloso fracasso desta conferência, a maior da história da ONU.
''Não podemos sair de Johannesburgo sem um acordo e sem o firme compromisso de pô-lo em prática. É impossível. Esta é a última oportunidade que teremos em muitos anos'', repete incansável Jan Pronk, enviado especial do secretário-geral da ONU, Kofi Annan.
Ao menos 14 pontos do chamado Plano de Ação, um documento de 70 páginas que deve ser referência para a próxima década, estão completamente paralisados, segundo os responsáveis da União Européia (UE).
''O ritmo das negociações se reduziu agora que há mais urgência. Se não resolvermos os problemas entre os especialistas, teremos que submetê-los aos ministros'', advertiu o responsável dinamarquês de Meio Ambiente Hans Christian Schmidt, cujo país detém a presidência da União Européia (UE).
A redução dos subsídios agrícolas dos países industrializados, o protecionismo, a energia, a distribuição de água, a ratificação do protocolo de Kyoto e a redução da pobreza são algumas das questões mais espinhosas cuja negociação se estenderá até o último minuto desta cúpula, segundo os especialistas. ''Sabemos que a questão dos subsídios agrícolas e a ajuda pública ao desenvolvimento, ambas prioritárias para a América Latina, vão ser muito difíceis, e que as discussões irão se prolongar até o último momento'', garantiu a ministra venezuelana de meio ambiente Ana Elisa Osorio, cujo país preside o G-77, (que reúne os Estados em vias de desenvolvimento).
Segundo o G-77, se se quiser realmente erradicar a pobreza, deve-se facilitar o acesso dos produtos dos agricultores dos países menos favorecidos.
No entanto os Estados Unidos e a UE se limitarão nesta conferência a confirmar os compromissos da reunião da Organização Mundial de Comércio (OMC) em Doha (Catar) em novembro, que prevêem negociar nos próximos três anos a redução progressiva dos subsídios, mas sem fixar metas concretas.
Em Johannesburgo, a UE e a América Latina, neste caso unidas, desejam que a comunidade internacional se comprometa a reduzir à metade o número de pessoas sem água corrente até 2015. Além disso, pretendem que a energia de fontes renováveis seja até 2010 de 15% (segundo a proposta da UE) e de 10% (segundo a proposta latino-americana).
Tudo isso vai de encontro à oposição dos Estados Unidos. O país só deseja assumir projetos unilaterais que serão realizados com a ajuda de organismos internacionais e do setor privado. ''Já não é mais o caso de conseguir avanços em Johannesburgo, agora temos que resistir para conseguir que pelo menos o que foi dito há dez anos no Rio de Janeiro seja respeitado'', garantiram membros de ONGs.
E para deixar a perspectiva ainda mais sombria, o G-77 também está dividido internamente em questões como a energia, onde a proposta latino-americana encontra a oposição dos produtores de petróleo.
Diante da urgência de conseguir acordos, responsáveis europeus admitiram que já começou o ''toma-lá dá-cá'': ''Eu dou, mas você dá mais. É assim que estão negociando agora'', disse Marcelo Furtado, do Greenpeace. ''Os líderes mundiais estarão se arriscando demais e seguirão feito sonâmbulos em direção a uma catástrofe ambiental se esta tendência de não cumprir promessas nem adotar compromissos concretos se confirmar na semana que vem'', alertou Kim Carstensen, do Wild World Fund (WWF).


