Buenos Aires, 17 (AE) - Concluiu sem resultados a jornada adicional de negociações entre representantes do setor de calçados do Brasil, a Abicalçados, e da argentina Câmara da Indústria do Calçado. Nesta sexta-feira (17), com o patrocínio dos governos de Brasil e Argentina, empresários dos dois países tentaram chegar a um acordo, mas foi impossível.
Irritados pela intransigência local, os brasileiros saíram da reunião direto para o aeroporto. Um futuro encontro está previsto para a semana que vem, novamente em Buenos Aires.
O impasse se deveu a diferenças nas cotas que cada lado propunha para a entrada de calçados brasileiros daqui até o fim do ano: os empresários argentinos queriam estabelecer uma cota de 1,2 milhões pares, enquanto que os brasileiros não aceitavam uma cota menor a dois milhões de pares.
Durante o dia, representantes dos dois governos se atarefaram em encontrar uma saída. Do lado brasileiro, o subsecretário-geral para assuntos de integração, econômicos e de comércio exterior, José Alfredo Graça Lima, e o secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, José Botafogo Gonçalves; do lado argentino, o Secretário de Indústria e Comércio, Alieto Guadagni, o subsecretário de Comércio Exterior, Félix Peña, e o Secretário de Relações Econômicas Internacionais, Jorge Campbell.
Os dois governos chegaram a um consenso: a cota de 1,7 milhão de pares. No entanto, no mesmo lugar onde haviam fracassado as conversações na quinta-feira - o Palácio San Martín, sede da chancelaria argentina - o brasileiro Nestor de Paula, e o argentino Carlos Bueno recusaram a proposta governamental.
No ano passado foram vendidos 11 milhões de pares de sapatos brasileiros na Argentina. Até os primeiros dias de setembro teriam entrado 9,3 milhões de pares. A limitação da entrada de calçados brasileiros daqui até o fim do ano poderia colocar em risco o destino de 4 milhões de sapatos brasileiros, já preparados para o envio à Argentina.
As fontes diplomáticas brasileiras não confirmaram o volume, mas afirmaram à Agência Estado que este carregamento precisa entrar neste país o mais cedo possível, já que por uma questão de temporada e de moda, não poderia ser vendido no ano que vem.
As fontes sustentaram que o Brasil compreende a debilidade política do governo argentino, muito suscetível às pressões de setores empresariais, mas que não admitirá o prejuízo que isso causaria aos empresários brasileiros. "Se estes calçados não entrarem, diversas pequenas e médias empresas poderiam fechar", afirmaram.
O embaixador do Brasil na Argentina, Sebastião do Rego Barros, declarou à imprensa brasileira em Buenos Aires que apesar das divergências entre empresários, a reunião entre representantes dos dois governos "foi muito positiva". Segundo Rego Barros, "houve entendimentos importantes, e isso deixa uma pauta aberta a futuras conversas".
Destacando a disposição dos empresários brasileiros, Rego Barros afirmou que a Abicalçados havia aceitado termos dos argentinos que jamais antes havia aceito. "Aceitaram o conceito de cotas, aceitaram que haveria um acordo até o final do ano 2000 e aceitaram que trabalhariam este ano e no próximo com a média das vendas brasileiras dos últimos três anos."
Rego Barros afirmou que os negociadores brasileiros sentiram que "de parte do governo argentino há um sentimento de sair desta metodologia de criar obstáculos, o que em outras palavras significa colocar em vigência um sistema de salvaguardas com outra aparência". Rego Barros afirmou que o Brasil não aceitará o congelamento da situação por tempo indeterminado.
"Fazer uma guerra comercial é sempre um perigo", disse o embaixador, que afirmou que "fazer uma guerra com um sócio com o qual se tem um grande saldo comercial (no caso, subentende-se o Brasil) é mais perigoso ainda".
Segundo o embaixador brasileiro "não sei se existe o perigo de uma guerra comercial. Mas há uma tensão muito grande com essas medidas argentinas". Rego Barros afirmou que "as salvaguardas acabam com o comércio". E deixou claro que o Brasil tomaria atitudes. "Ninguém imagina que um país vai se armar enquanto seu vizinho somente fica olhando..."
A medida de Litha Spíndola, secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, sobre os produtos argentinos, teve imediato impacto em Buenos Aires.
O Secretário de Relações Econômicas Internacionais Jorge Campbell, afirmou-se "supreso" com a medida: "como estávamos em conversações, não previmos que aconteceria isso. Não vou opinar sobre as medidas, já que tenho que analisá-las antes".
Segundo o secretário, o principal negociador argentino para o bloco comercial, "o termo reciprocidade da maneira como foi usado deveria desaparecer do léxico do Mercosul".

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