A negligência pode ter sido a principal causa da tragédia que matou 12 crianças ontem em uma creche da Prefeitura de Uruguaiana, a 634 quilômetros de Porto Alegre (RS). Essa é a avaliação preliminar da polícia de Uruguaiana. No momento do incêndio, não havia nenhuma funcionária para socorrer os bebês. Os corpos carbonizados das crianças, com idade entre 1 e 3 anos, foram sepultados ontem. Os pais e familiares das vítimas estavam revoltados.
As crianças estavam na creche Casinha da Emília, no Cohab II, bairro pobre da cidade. Elas dormiam no chão em colchonetes dentro de uma sala. Um aquecedor elétrico teria provocado o incêndio. As crianças não conseguiram fugir e foram encontradas abraçadas no canto da sala.
Treze funcionárias que trabalharam na creche, incluindo a diretora, prestaram depoimento anteontem à noite na delegacia. Duas teriam ficado responsáveis pela sala, mas teriam se ausentado para arrecadar dinheiro para a realização de uma quermesse. A polícia investiga que há pouco tempo um outro aquecedor também teria provocado um princípio de incêndio, que foi controlado.
A diretora e as funcionárias da creche foram afastadas até a conclusão do inquérito feito pela polícia e pela sindicância que está sendo realizada pela prefeitura. A creche que atendia cerca de 100 crianças foi interditada.
‘‘O fogo começou a partir de um aquecedor elétrico’’, disse a delegada Raquel Peixoto, da 2ª Delegacia de Polícia, de Uruguaiana, que assumiu a investigação. Ontem, depois de ouvir 16 depoimentos, ela afirmou que o aquecedor, ao contrário do que fora inicialmente relatado pela diretora da creche, Carmen Marília Lopes, não estava suspenso no teto mas colocado no chão e ‘‘ao alcance das crianças’’.
A delegada confirmou a informação após o depoimento das duas estagiárias, ambas menores, encarregadas da sala. Reparou ainda que, muito perto da estufa, havia colchonetes e roupas das crianças. Fazia frio - a mínima na cidade foi de três graus na terça-feira - e o aparelho foi ligado. Como o grupo dormia logo depois do almoço, Raquel acredita que as vítimas tenham morrido asfixiadas pela fumaça.
Nenhum adulto vigiava os meninos e meninas. As duas estagiárias confirmaram que, na hora em que as chamas consumiram a sala, estavam no comércio solicitando brindes para uma quermesse. Uma funcionária da cozinha teria sido incumbida de olhar as crianças .
A diretora admitiu que a creche não tinha extintores e seus 18 funcionários não estavam treinados para enfrentar situação semelhante. Ela negou que as duas portas da sala estivessem trancadas. Um dos acessos da sala, com saída para a parte externa da creche, estava fechado por razões de segurança. ‘‘Mas a outra porta, interna, não estava chaveada’’, confirmou a delegada. Raquel disse que a fechadura da porta tinha alguma espécie de problema, que dificultou sua abertura, mas não estava trancada.
O prefeito de Uruguaiana, Neíto Bonotto (PPB), determinou o afastamento dos 18 funcionários da Casinha da Emília, enquanto durar a sindicância administrativa aberta na terça-feira. Dois peritos do Instituto Geral de Perícias (IGP), Ruy Braescher Filho e Kátia Kuiawaski, foram enviados à Uruguaiana para investigar as causas do incêndio.
A delegada pretende ouvir mães de alunos e um comerciante que tem um bar perto da Casinha da Emília. A princípio, acredita que, dos 18 funcionários da creche, apenas quatro estariam no local quando aconteceu a tragédia. A diretora estava ausente. Alguns teriam ido a uma praça perto da creche e outros estariam comprando lanches no bar. ‘‘Que houve negligência é certo. Agora queremos determinar sua dimensão e quantas pessoas estão envolvidas’’, disse a delegada, que continuará colhendo depoimentos nos próximos dias. ‘‘Há muitas contradições’’, justificou.

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