São Paulo, 21 (AE) - Dois navios carregados com plutônio farão uma longa e arriscada viagem da Europa ao Japão e uma das rotas alternativas passa pelo Brasil. O primeiro navio deixou o porto de Barrow, na Inglaterra, na segunda-feira (19), com um atraso de 12 horas provocado por protestos da organização ambientalista Greenpeace. O segundo navio saiu hoje do porto de Cherbourg, na França, apesar da barreira formada por três navios do Greenpeace - o Raibow Warrior, o M.V. Greenpeace e o Sirius - ancorados nas proximidades. O carregamento seria suficiente para construir 60 bombas atômicas. Um milionésimo de grama do plutônio, se inalado, mataria uma pessoa.
O "cabo-de-guerra" entre os ambientalistas e a indústria nuclear chegou até aos bancos. Ontem à noite a indústria nuclear inglesa obteve o bloqueio das contas do Greenpeace em Amsterdã, na Holanda, "para cobrir eventuais danos causados pela ação ambientalista".O segundo navio, que leva canhões a bordo, está sob forte esquema de segurança.
De acordo com Ruy de Góes, do Greenpeace em São Paulo, há três rotas alternativas para os navios chegarem ao Japão: uma passa pelo canal do Panamá, outra dá a volta pela costa brasileira e argentina e contorna o Cabo Horn pelo Chile e a terceira segue pela áfrica, dobra o cabo da Boa Esperança e passa perto da Nova Zelândia. "Os navios são bombas flutuantes, porque, além do plutônio e dos canhões, carregam grande quantidade de combustível, já que nenhum país permitiria escalas para reabastecimento", diz Ruy de Góes. "A carga também é altamente suscetível a ataques terroristas, interessados no plutônio".
Protestos - Os países caribenhos já divulgaram um documento de protesto contra a passagem dos navios pelo Canal do Panamá e a Nova Zelândia também protestou oficialmente contra a rota africana. Os países sul-americanos ainda não tomaram posição oficial. Em 1995, o mesmo navio Pacific Pintail, hoje no porto de Cherbourg, levou lixo nuclear da Europa para o Japão, passando perto de Fernando de Noronha e ao largo das 200 milhas marítimas brasileiras, apesar dos protestos do governo federal e da ameaça do Chile bombardear o navio, se não saísse de suas águas.
Agora, o carregamento é mais letal. Bem distribuídos, cinco quilos deste plutônio seriam suficientes para acabar com a vida do planeta. E o Greenpeace estima que haja 446 quilos nos dois navios. O plutônio é um subproduto do processamento do urânio e segue para uma nova usina nuclear japonesa, de reprocessamento rápido. "É inaceitável que se coloque uma parcela considerável do Planeta em risco para alimentar um programa nuclear decidido por três países", afirma Ruy de Góes. "Acidentes marítimos acontecem, por mais precauções que sejam adotadas".

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