São Paulo, 21 (AE) - Dois navios carregados com plutônio fazem uma arriscada viagem da Europa ao Japão, nas próximas três ou quatro semanas, e uma das rotas alternativas passa pelo Brasil. O primeiro navio deixou o porto de Barrow, na Inglaterra
na segunda feira (19), com um atraso de 12 horas provocado por protestos da organização ambientalista Greenpeace. O segundo navio saiu hoje do porto de Cherbourg, na França, apesar da presença de três navios do Greenpeace - o Rainbow Warrior, o M.V. Greenpeace e o Sirius - nas proximidades.
O carregamento de plutônio seria suficiente para construir 60 bombas atômicas, que ficariam prontas em, no máximo
três semanas. Um milionésimo de grama do plutônio, se inalado, mataria uma pessoa. Qualquer acidente ou vazamento coloca em risco toda a vida dos oceanos na rota escolhida.O plutônio é um subproduto do processamento do urânio e segue para um novo tipo de usina nuclear japonesa, de reprocessamento rápido.
Policiais franceses abordaram um dos navios dos ambientalistas, o Sirius, que foi expulso das águas territoriais. "Chega a ser obsceno que o Greenpeace seja atacado no lugar dos governos da França, Inglaterra e Japão, responsáveis por expor todo o Planeta ao risco de um desastre com um carregamento de plutônio", declarou Bruno Rebelle, do Greenpeace França. O cabo-de-guerra entre os ambientalistas e a indústria nuclear chegou aos bancos: a British Nuclear Fuels obteve o bloqueio das contas do Greenpeace em Amsterdã, na Holanda, desde terça-feira (20) à noite, "para cobrir eventuais danos causados pela ação ambientalista". Apesar do bloqueio, os ambientalistas permaneceram no porto até a saída do segundo navio, que leva canhões a bordo e está sob forte esquema de segurança.
De acordo com Ruy de Góes, do Greenpeace Brasil, há três rotas alternativas para os navios chegarem ao Japão: uma passa pelo canal do Panamá, outra dá a volta pelas costas do Brasil e Argentina, contornando o Cabo Horn pelo Chile e a terceira segue pela áfrica, dobra o cabo da Boa Esperança e passa próximo da Nova Zelândia. "Os navios são bombas flutuantes, porque, além do plutônio e dos canhões, carregam grande quantidade de combustível, já que nenhum país permitiria escalas para reabastecimento", disse Góes. "A carga também é altamente suscetível a ataques terroristas, interessados no plutônio".
Protestos - Os países caribenhos (Caricom) divulgaram um documento, dia 16 de julho, contra a passagem dos navios pelo Canal do Panamá e contra o uso do mar do Caribe como via de transporte para lixo e combustível nuclear, protestando contra Inglaterra, França e Japão por ignorarem decisões anteriores dos governos caribenhos sobre o assunto. A Nova Zelândia também assumiu publicamente posição contrária a qualquer carregamento nuclear que se aproxime de suas águas e vem trabalhando de forma ativa para a assinatura de tratados de transporte internacional que impliquem consentimento prévio dos países costeiros.
Brasil, Argentina e Chile ainda não se posicionaram publicamente neste caso. Em 1995, o mesmo navio Pacific Pintail, que deixou hoje o porto de Cherbourg, levou lixo nuclear da Europa para o Japão, na mesma rota agora tida como alternativa. Passou próximo de Fernando de Noronha e ao largo das 200 milhas marítimas brasileiras, apesar dos protestos do governo federal e seguiu pela Argentina e Chile, ignorando ameaças e protestos de ambos.
Carga - Agora o carregamento é mais letal. Bem distribuídos, cinco quilos deste plutônio seriam suficientes para acabar com a vida no Planeta. E o Greenpeace estima que haja 446 quilos nos dois navios. "É inaceitável que se coloque uma parcela considerável do Planeta em risco para alimentar um programa nuclear decidido por três países", afirma Ruy de Góes. "Acidentes marítimos acontecem, por mais precauções que sejam adotadas".

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