Natal e crime - PERCIVAL DE SOUZA
Natal e crime
A doutrina que Cristo idealizou de amai-vos uns aos outros, do perdão, do bem vencendo o mal, da gratidão que há quase dois milênios divulgou.
Aproxima-se o Advento, isto é, a vinda de Cristo, a cidade está cheia de luzes coloridas, preparação de festas, revelação de amigos secretos e um clima de confraternização no ar. Mesmo assim, a criminalidade - os atos antisociais, para os que assim preferem - não diminuirá. É da natureza do ser humano carregar o mal e o bem dentro de si, como pólos opostos. Essa luta do bem contra o mal é o paradoxo ético fundamental da humanidade. Roubos, furtos, rapinagens, golpes, gatunagens, mortes, ferimentos, tráfico e consumo de drogas, tudo seguirá seu fluxo normal. No Rio, os traficantes estão usando símbolos natalinos, como o Papai Noel, para recheá-lo de drogas e fazer a entrega, acima de suspeitas. Outros praticarão o antisocial como fórmula de uma moral biológica. Afinal, ainda se faz guerra por causa da religião, pela busca da água e da comida. O próprio Natal foi precedido de uma matança de inocentes determinada por Herodes.
Os caminhos que o Mestre ensinou - Bondade, caridade, devoção - e os erros que o Messias condenou - Maldade, felonias, traição -
Do Paraná para vários pontos do país, tramita um inquérito sigiloso na Polícia Federal, apurando casos de evasão de divisas. Marco zero em Foz do Iguaçu, com metástase no Paraguai, investiga-se como figurinhas carimbadas conseguem o milagre da multiplicação dos dólares. É, ainda, segredo de Justiça, mas muito curioso nesses tempos em que se insiste em considerar foco de contrabando o vai-e-vem pela Ponte da Amizade e as aparatosas operações policiais em aeroportos, no abre e fecha malas de passageiros, como se fosse esta a base principal de mercadorias ilegais. Aliás, a quem possa interessar, contrabando pesado - armas, munição e drogas, sem falar nos carros roubados - passa tranquilo pelo Porto Tigre, em Oliveira Castro, pertíssimo de Guaíra, sem que ninguém faça nada, absolutamente nada. Não sei dizer se por vicinais semânticas tal omissão é culposa ou dolosa. Mas que é arrepiante - ah, isto é.
Tudo isto é morto, é mera fantasia, pois se seguidos fossem, com acalanto, se amor houvesse neste mundo louco...
O homem só é superior à besta quando tem um consciente sentimento de solidariedade para com o semelhante. No Natal das festas (mudou ele ou mudei eu? - perguntaria Machado de Assis) são pensados projetos e idéias, sem pensar a vida, e a moeda pela moeda é o lema de hoje.
O problema criminal continua sendo cada vez mais da sociedade e dos governos. A melhor política do mundo contra a violência urbana continua sendo a que dá empregos e remunera à altura os trabalhadores. O ódio nas relações sociais e políticas é fator de desagregação e de atraso civilizatório. Não pode haver sociedade democrática sem respeito à dignidade humana.
É preciso considerar, também, a criminalidade consciente, que faz a opção da vida do crime, com cálculos sobre empreitadas e possibilidades de punição. Como se este fosse um mundo também de investimentos e lucros e o prejuízo pudesse ser contabilizado pela prisão. Cálculos estimulantes, porque é impressionante nos centros urbanos brasileiros o descompasso entre crimes praticados e autores identificados - quer em assassinatos, quer em roubos e furtos, quer na oferta das drogas. Os casos de autoria conhecida, ou seja, quando os autores dos crimes foram identificados, perdem longe para os de autoria desconhecida. A impunidade forma uma legião arrogante, que desfila pelas ruas e também frequenta colunas sociais.
Igual disparidade não haveria: de poucos, nesta vida, terem tanto e tantos, neste mundo, terem pouco
Natal é nascimento de Cristo, é Deus-Conosco, é vinda perceptível à luz da fé. Nesse sentido, desejamos a cada leitor: Feliz Natal!





