Natal de todas as doutrinas
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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Curitiba- Diz o ditado que a fé move montanhas. Trata-se, é claro, de uma metáfora para indicar que esse sentimento tem poder para realizar grandes mudanças. Nessa época do ano, no entanto, essa alegoria ganha confirmação concreta, quando montanhas de dinheiro mudam de mãos para a confecção das festas natalinas, cuja celebração envolve ceia, presentes, decoração e outros elementos que aliam o capitalismo ao cristianismo.
É fato que nem todos compartilham da mesma fé. Existem aqueles que duvidam da vinda do Messias, outros questionam apenas que ele tenha vindo no dia 25 de dezembro, e têm também aqueles que não dão importância a esse fato. No entanto, independentemente da crença de cada um, em um país de maioria católica como o Brasil, é bem provável que na noite do dia 24 muitos adeptos de outras religiões dividam esse momento com a família e com pessoas queridas.
É o caso do jornalista Omar Nasser, que já comprou seu espumante sem álcool para a ceia natalina. De religião muçulmana, ele também passará longe do pernil e da carne de qualquer outro animal que não tiver sido abatido de acordo com as tradições islâmicas. Segundo ele, para os seguidores do Alcorão, o Natal é um dia como outro qualquer. ''Não celebramos o nascimento de Cristo mas temos grande respeito pelo profeta Jesus'', diz.
Casado com uma católica de ascendência polonesa, Omar conta que já se habituou às celebrações natalinas. Este ano irá passar a data no interior do Estado, mas levará com ele sua bússola para poder fazer suas orações em direção à Meca.
Para comunidade Hare Krishna, a noite de ontem, véspera de Natal, foi marcada por um banquete vegetariano, sem bebidas alcóolicas, seguido pelo canto de mantras em glorificação a Deus. Segundo Mahadeva, 51 anos, e seguidor da doutrina há 25, o templo de Curitiba já está todo decorado com guirlandas e enfeites natalinos. ''Mesmo em países de orientação islâmica ou budista existe a cerimônia'', explica. Tamanha devoção se deve ao fato de alguns segmentos da religião considerarem Jesus como um avatar (reencarnação) de Krishna.
Outras tradições natalinas também são incorporadas. Mahadeva, que ganhou do amigo secreto uma jaqueta, conta que existem até mesmo músicas de Natal para a ocasião, como a Harinama, um canto de devoção a Krishna.
O Natal também será comemorado normalmente na casa de Leonardo Mendes Ferreira, 28 anos, conhecido como Eiho Kendo (que significa caminho polido), dentro da comunidade budista dd Curitib. ''Comemoramos sem problemas. O espírito do Natal, que abrange a questão da fraternidade, está dentro do budismo'', afirma. Segundo ele, o templo que frequenta, um dos oito da Capital, entra em recesso nessa época.
Para os budistas, a data que mais se aproxima do Natal é o Hana Matsuri, comemorado no dia oito de abril, quando é celebrado o nascimento de Sidarta Gautama, príncipe hindu que se tornou o Buda.
Na religião Bahai, a data correspondente é celebrada no dia 12 de novembro, e marca a aparição do seu fundador, o profeta Bala'u'lláh. A doutrina é relativamente nova, nasceu há apenas 165 anos, no Irã.
De acordo com a professora aposentada Maria Zotto, seguidora da doutrina, no Paraná existem cerca de 600 adeptos e 5 mil em todo Brasil. ''A gente ainda convive muito misturado (com outras religiões)'', afirma ela. Essa característica permeia toda cultura Bahai, que tem como símbolo uma estrela de nove pontas, simbolizando as nove grandes religiões mundiais. ''É includente, não excludente'', explica.


