São Francisco, 29 (AE) - Lançada em 6 de janeiro de 1998 do Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral, na Flórida, com o objetivo de orbitar a Lua por 12 meses e recolher dados sobre o satélite da Terra, a nave espacial Lunar Prospector está prestes a retomar os projetos e sonhos dos anos 60, talvez abrindo as portas para a construção - pela iniciativa privada - da primeira estação-base de pesquisa científica e exploração mineral fora da Terra.
Exatamente às 6h51 deste sábado, horário do Brasil, a Nasa, agência espacial norte-americana, deliberadamente lançará a sonda contra uma gigantesca cratera de 50 quilômetros de diâmetro e 4 quilômetros de profundidade, no Pólo Sul lunar, provocando uma fenomenal explosão e a ejeção dos detritos a grande altitude, provavelmente cobrindo toda a área da cratera.
Astrônomos amadores não conseguirão ver a explosão nem mesmo às margens do Pacífico Norte, considerado o melhor ponto de observação. Mas nada menos de 25 observatórios em todo o mundo, pelo menos dois deles no espaço, estarão registrando cuidadosamente tudo o que ocorrer logo após a explosão, principalmente nos espectros ultravioleta e infravermelho.
O que eles procuram: partículas de hidrogênio e oxigênio juntas - ou água. Na verdade, gelo: a equipe de cientistas da Nasa para o projeto Lunar Prospector, chefiada por seu idealizador, o físico Alan Binder, acredita que o hidrogênio detectado por sensores dentro da cratera seja gelo, conservado no pólo lunar em razão da absoluta ausência de luz e calor solar. Outros cientistas discordam e acham que a detecção de hidrogênio só pode ser sinal de água quando se vê a água efetivamente.
E é isso que o inédito final da missão quer provar: a existência de água na Lua. Entre 4 e 12 horas depois da explosão
uma nuvem de detritos vai pairar sobre a cratera, estendendo-se em seguida para outras áreas da superfície lunar. Mas, nos primeiros três minutos desse período, se houver água na Lua, o gelo aquecido pela explosão e, em seguida, quando estiver fora da cratera, pela luz do Sol, vai formar um vapor dágua visível na parte infravermelha do espectro.
A luz do Sol vai romper as supostas partículas de H2O em partículas de hidrogênio puro e de OH (hidróxido). Essas partículas de hidróxido também são visíveis na parte ultravioleta do espectro. Gravadas todas as informações, os cientistas passarão pelo menos dois meses fazendo a análise, segundo Binder.
Sucesso - As possibilidades de sucesso - ou seja, de um resultado positivo - são muito remotas. "Temos 10% de chance de alcançar um resultado positivo", avaliou Binder. Permanentemente no escuro, a cratera é um mistério: não se sabe nada de sua topografia interior e, portanto, a nave pode simplesmente se chocar com uma rocha logo no início e jamais chegar ao fundo.
Também é possível que a nave caia em uma região da cratera onde não haja hidrogênio ou que, por alguma razão, os observatórios terrestres e espaciais não consigam detectar a presença desse elemento nos dejetos da explosão.
"Por isso, se o resultado for negativo, não temos nada nas mãos, nenhum resultado, nem mesmo podemos afirmar que não existe água na Lua", disse Binder, na terça-feira, à Agência Estado. "Mas, se pudermos provar a existência de água lá, tudo muda, e aposto que em 20 anos teremos instalado uma estação-base administrada pela iniciativa privada e com centenas de trabalhadores. Vamos retomar a história de onde ela parou, quando estávamos a um passo de instalar essa estação na Lua e o Congresso cortou o financiamento do Programa Apollo."
Ciência - Com ele concorda a porta-voz da Nasa Lisa Chu-Thielbar, que falou à AE na segunda-feira. "A Nasa não tem planos para explorar a Lua no momento", disse ela. "Mas, se a existência de água no satélite for provada, será uma descoberta significativa e haverá muita pressão para ir colher amostras dessa água, que pode ser originária de cometas. Há um reconhecimento geral, na comunidade acadêmica, de que a Lua é um excelente lugar para fazer Ciência."
Segundo Chu-Thielbar, o próprio diretor de Projetos Avançados da Nasa, Lewis L. Peach, foi enfático sobre a possibilidade de se encontrar água na Lua: "A descoberta terá profundas implicações", disse ele, em março, numa entrevista à imprensa. Se depender de Binder, Peach nem imagina quão profundas podem ser essas implicações.

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