Não tolero,mas amo leite
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domingo, 03 de maio de 2009
Cynthia Ito<br>Especial para FOLHA 
Imagine uma deliciosa fatia de pizza ou uma suculenta lasanha e, para terminar, um chocolate de sobremesa... Muita gente vai pensar: ''ah, que delícia'', mas, para cerca de 25% da população brasileira, tal menu traz lembranças nada agradáveis.
Essas pessoas possuem o que os médicos chamam de intolerância à lactose, o açúcar presente no leite e em todos os seus derivados. Ela acontece por causa da produção insuficiente ou nula de lactase, uma enzima essencial no processo digestivo daquele açúcar.
Segundo a nutricionista Vilma Constantino Souza, o indivíduo nasce com todas as enzimas, inclusive a lactase. Na vida adulta, a quantidade dessa enzima diminui, um processo natural do crescimento. ''Continuamos a 'mamar' pelo resto de nossas vidas e a enzima produzida por uma pessoa adulta não é suficiente para processar toda a lactose presente no leite de outros animais, como o da vaca e o da cabra que, além de tudo, é bem maior que a do leite materno humano'', explica.
Para acabar com o excesso do açúcar, o corpo humano aciona o sistema imunológico, que capta o corpo estranho (no caso a lactose) e o destrói. Como o processo ocorre no intestino, a eliminação se dá pelas fezes, causando diarréia, autofermentação, cólica intestinal e flatulência, entre outros sintomas menos frequentes.
''Se a pessoa que sofre com esse problema insiste em consumir leite e seus derivados, ela pode desenvolver doenças mais graves, acarretadas pela destruição da flora intestinal e da ação bactericida causadas pela diarréia. A doença de Chron, a colite e a Síndrome do Intestino Irritável (SII) são algumas delas'', alerta a nutricionista.
A intolerância à lactose, como destaca Vilma Souza não deve ser confundida com a alergia ao leite, que está associada à proteína nele existente e que provoca sintomas bem mais graves, como o fechamento da glote e o choque anafilático. O importante é ficar sempre atento ao que acontece em seu organismo quando consome determinados alimentos.
Tratamento
Não existe nada que aumente a produção de lactase, mas os sintomas podem ser controlados por meio de dietas. Além disso, a enzima pode ser adquirida sem receita médica em forma de drágeas, tabletes ou gotas, que são adicionados ao leite, eliminando os sintomas.
Independente da idade, a pessoa pode desenvolver ou ter os sintomas da intolerância. Um tratamento possível e feito pela Dra. Vilma é retirar todos os alimentos alergênicos por um determinado período, que pode variar de 30 a 90 dias, para a desintoxicação do organismo.
Após este período, faz-se a rotatividade alimentar, que é a reintrodução do alimento, e observa-se atentamente o que vai acontecer com o organismo da pessoa. ''Se ela voltar a apresentar os sintomas, quer dizer que ela não pode consumir o alimento'', afirma a nutricionista.
E o cálcio?
De acordo com a Vilma, estudos europeus comprovam que, após o período de amamentação, o ser humano não tem necessidade de consumir leite. O cálcio pode ser retirado de outras fontes alimentares, como os folhosos verde-escuros em geral (couve, brócolis), o repolho, o mamão, o tofu (queijo de soja) e as algas, entre outros.
''É comprovado que os orientais, que não são grandes consumidores de leite, quase não apresentam problemas de osteoporose. Eles tiram o cálcio das algas que comem'', continua.
A nutricionista ainda ressalta que, apesar de o leite apresentar grande quantidade de cálcio, apenas 30% deste é absorvido pelo nosso organismo. Isto porque a absorção está diretamente ligada à presença de magnésio na alimentação. ''É o magnésio que fixa o cálcio nos ossos'', diz. Os folhosos verde-escuros, mesmo tendo menor quantidade de cálcio, garantem 70% de sua absorção porque também têm magnésio.


