"Não tenho inimigos"
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de setembro de 1999
Por Joseph Contreras 
Caracas, 01 (AE-NEWSWEEK) - Antes de partir para os Estados Unidos na semana passada, Chávez falou a Joseph Contreras, da Newsweek, no Palácio Miraflores, em Caracas.
A seguir, trechos da entrevista: Newsweek: Para onde você quer levar a Venezuela? Chávez: Queremos melhorar o padrão de vida do povo nas áreas da saúde, educação, emprego, habitação, salários. Queremos criar uma sociedade em que a liberdade, a igualdade e a justiça imperem. Estamos avançando rumo a um sistema verdadeiramente democrático, com liberdade de expressão e de crenças, e para um Estado que represente a sociedade. Queremos uma economia diversificada e humanística que sirva ao homem. Newsweek: Como presidente eleito democraticamente, o senhor lamenta ter tentado derrubar um governo anterior? Chávez: Não dei um golpe; não é assim tão simples. Havia uma força (popular) que reagia contra a corrupção, fome e arrogância
e um grupo dos nossos foi levado por esse processo. Não me atribua tão grande poder de organizar um golpe. Newsweek: O senhor acha que fez a coisa certa? Chávez: Sim, eu tinha de fazê-lo. Isto aqui era um país cheio de ouro, petróleo, ferro, alumínio, água e terras férteis, mas 80% da população vivia na pobreza. O presidente (Jaime) Lusinchi vivia com sua amante. Eles davam festas enquanto o povo passava fome. Depois (Carlos Andrés) Pérez fez o mesmo: trouxe sua amante para cá enquanto sua mulher morava na residência oficial. Que tipo de exemplo moral é esse? Newsweek: O senhor diz que o país precisa de um líder de verdade e o senhor é o homem certo para a Venezuela. Chávez: Não, não, sou bastante humilde e nunca disse isso. Este é um processo e, se outro líder surgir e assumir meu lugar amanhã, saio de bom grado para jogar beisebol ou ensinar crianças a ler, escrever, cantar e pintar. Estamos falando aqui de um movimento coletivo. Newsweek: Recentemente, o governo de Washington manifestou o "receio cada vez maior" de choques entre seus partidários e parlamentares oposicionistas. Como andam as relações da Venezuela com os Estados Unidos? Chávez: É bom que amigos tenham preocupações recíprocas. Respondemos com afeto a esse receio, pois nós também nos preocupamos com o que acontece em outros países. Newsweek: Soldados são treinados para derrotar o inimigo. O senhor precisa sempre de inimigos para sobrepujá-los? Chávez: Não tenho inimigos. Adversários políticos eu tenho, mas espero que um dia eles possam tornar-se meus amigos. Creio que o (barão von) Clausewitz estava certo quando disse que a guerra é a continuação da política por outros meios. Os princípios do combate militar são semelhantes aos princípios da luta política e lá bem no fundo os seres humanos têm as mesmas motivações - vencer, alcançar um objetivo.


