Londrina - ''A gente era obrigado a levantar 5 horas da manhã, até no inverno. Tinha que tomar banho com água fria e para se secar não podia usar toalha. Eu ficava passando a mão sobre a pele para tirar a água, a mulher dizia que isso fazia bem para saúde. Também tinha os castigos, ficar de joelhos sobre o milho, palmadas. Não tem como contar tudo o que passei, foi uma vida.''
Narcisa Santos de Jesus, de 53 anos, lembra bem da década que passou num educandário em Curitiba, logo após ser separada dos pais em 1964. ''Hoje não tenho ninguém, a não ser meu filho. Cresci sozinha tive que me virar. Quando fiz 16 anos invoquei que queria sair do educandário e um tio foi me buscar, ele era policial'', recorda.
Ao chegar na casa do tio Narcisa ficou decepcionada. ''Pensei que ele tinha preparado pelo menos um quartinho para mim, mas ele tinha outros três filhos e moravam numa casa humilde. Eu dormia num colchãozinho na sala.''
Depois de alguns meses na casa do parente, Narcisa decidiu arranjar um lugar próprio para morar. ''Trabalhava de doméstica. Foi um verdadeiro choque com a realidade, pois estava acostumada com a rotina do educandário. A gente fazia serviços de limpeza, mas do nada ter que trabalhar para viver, foi uma experiência muito difícil, passei fome, frio, tudo o que você imaginar'', conta.
Enquanto ficou no educandário, Narcisa nunca visitou os pais, que estavam em Piraquara no Hospital Colônia. ''Perdi completamente o contato com eles e também com meus dois irmãos e minha irmã. Eu até acho que se encontrasse eles na rua hoje nem iríamos nos reconhecer'', aposta.(D.B.)

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