"Não serei traído pela minha base", diz Pitta
"Não serei traído pela minha base", diz Pitta16/Mar, 0:16 São Paulo, 15 (AE) - O prefeito Celso Pitta (PTN) disse hoje, em entrevista exclusiva à AE, no Palácio das Indústrias, que confia na sua base de apoio na Câmara Municipal e os vereadores da situação vão impedir a criação de uma CPI sobre as novas acusações de sua ex-mulher, Nicéa. Por mais de 40 minutos, ele rebateu as acusações, defendeu seus secretários, criticou a oposição e a Rede Globo. Disse que, se pudesse voltar no tempo, "estrategicamente faria a mesma coisa". E afirmou que não trocaria a Prefeitura pela família. A seguir, a íntegra da entrevista concedida a Roberto Gazzi: AE - O senhor já conseguiu avaliar os pontos positivos que sua renúncia agora traria para a cidade? Celso Pitta - Não vejo razão para considerar esta hipótese. Em todas as crises que eu passei esta questão foi levantada e sempre foi superada... AE - Mas agora há, por exemplo, a ameaça de senadores de não aprovar o refinanciamento da dívida... Pitta - Esta questão tem de ser uma decisão consciente e baseada em evidências técnicas. Foi um trabalho de mais de um ano, que resultou num bom acordo para a cidade. Assim é que a questão tem de ser vista e não numa situação de sensacionalismo que estamos vivendo a partir das declarações infundadas da dona Nicéa. AE - O senhor não acredita que nenhuma das acusações de dona Nicéa possam ter um fundo de verdade? Pitta - Nenhuma. E afirmo isso enfaticamente. Estão ficando evidentes as contradições das acusações. Hoje uma emissora mostrou uma gravação feita com ela há 40, 60 dias (a Amaury Júnior) em que ela dá sua vida para mostrar minha honestidade, minha correção e probidade. Isso se contrasta violentamente com o que vem sendo dito desde sexta-feira. Ela declarou que éramos pobres e em menos de 24 horas mudou radicalmente a afirmação dizendo que eu era milionário. Ontem (anteontem) o próprio Estado publicou uma matéria a respeito de uma prima que reside nos EUA e seria administradora de contas que teria no exterior e a própria Nicéa desmentiu a informação. AE - O senhor confirma que a Raquel Moura Borges é sua prima? Pitta - A Raquel é uma prima afastada... AE - E a administração de recursos? Pitta - Nunca tivemos relacionamento comercial ou financeiro, absolutamente. AE - O senhor se importaria em ter seu sigilo fiscal e bancário quebrado? Pitta - De forma alguma. As minhas contas bancárias estão bloqueadas há dois anos por decisão judicial. Elas já são controladas automaticamente. Olha, não existe pessoa neste país que tenha sido tão investigada, tão esmiuçada como eu. O fato que me conforta é que a cada investigação tenho recebido um atestado de idoneidade moral. AE - Afinal, o senhor é um homem rico ou pobre? Pitta - Eu sou um homem que vive de acordo com seu salário (R$ 6 mil mensais). Tenho um padrão de vida que consegui de acordo com toda a minha vida profissional, de degrau em degrau, sem nenhum outro tipo de provimento. Como ex-executivo de empresas e com alguma herança de família, amealhei um patrimônio que é de conhecimento de todos. Tenho um apartamento aqui em São Paulo, um no Leblon (no Rio) e automóveis no meu nome e no nome da Nicéa. AE - São os bens que constam do processo de divórcio litigioso? Pitta - Sim. AE - Dona Nicéa disse na sexta ter ficado chateada com o fato de o senhor não ter conseguido romper o esquema de corrupção herdado do governo Maluf. O senhor concorda com a afirmação? Pitta - Não. Eu rechaço veementemente. Os fatos demonstram o contrário. Foi na minha gestão que se iniciou um combate à corrupção sem trégua, sem precedentes na história da cidade e do País. Foram afastados funcionários, foram instauradas inúmeras sindicâncias, foi criada uma corregedoria... AE - Algumas destas medidas foram tomadas antes das denúncias da chamada máfia dos fiscais? Pitta - Uma mera consulta aos registros da Prefeitura vai mostrar que as investigações sempre aconteceram. AE - Isso significa que o senhor herdou do ex-prefeito Paulo Maluf um governo com problemas de corrupção que o senhor teve de atacar? Pitta - Diria que a administração tinha problemas com a corrupção herdadas por administrações anteriores. Como o próprio Ministério Público constatou no desenvolvimento de seu trabalho, a existência de corrupção na administração vem de décadas. Portanto, um problema não só da administração anterior, como da anterior da anterior. AE - Então, nestes três anos, o senhor não teria como dizer se o governo anterior teria sido mais ou menos corrupto que os outros? Pitta - Eu diria que sobre irregularidades na Prefeitura fazer uma referência ao governo imediatamente anterior seria no mínimo insuficiente. Teríamos de ir mais atrás e verificar, por exemplo que aquela prática que eu acabei, de distribuir regionais por indicação de vereadores, trata até da época do PT. Havia até inúmeros administradores parentes de vereadores do PT, que foram a estes cargos sem nenhuma outra consideração sobre suas capacidades administrativas. AE - O senhor acha que hoje não há nenhum fiscal achacando comerciante, nenhuma prática de suborno numa regional? Pitta - Isso é uma situação que pontualmente pode acontecer. Mas aquele cenário anterior, aquela sistemática de propinas foi completamente desmantelada. Você pode ter, e isso em função do gênero humano, erros de comportamento. AE - Com estas novas denúncias... Pitta - Só um instantinho. Desculpe retificar sua pergunta. Não teve nenhuma denúncia nova. O que teve foram acusações absolutamente inverídicas, que repetem fatos anteriores, amplamente esclarecidos, inclusive na Justiça. AE - Bom. Diante da nova onda de acusações existe um movimento na Câmara para a criação de uma CPI. Até mesmo alguns vereadores da sua base de apoio chegaram a declarar apoio a esta nova comissão. O senhor teme ser traído pelos vereadores? Pitta - Não. Em primeiro lugar, eu não vejo na base governista uma cisão ou uma movimentação para sequer acatar parcialmente estas declarações que originaram toda esta situação. Esta é uma constatação importante. Em segundo lugar, a oposição é oportunista.. e está sempre de plantão para a qualquer brecha que aconteça tentar promover o debacle do governo. Não é uma oposição construtiva a do PT e do PSDB. É uma oposição destrutiva. Todas as crises que enfrentei e tive de superar foram fruto de uma ação destrutiva onde nada de construtivo era oferecido como alternativa. O objetivo da oposição sempre foi o "fora Pitta". AE - Por falar em "fora Pitta", hoje ocorreu em frente do Palácio das Indústrias uma manifestação de estudantes caras-pintadas pedindo "fora Pitta". O senhor não teme enfrentar um processo como viveu o ex-presidente Fernando Collor? Pitta - Só um instante. Vou pedir à secretária que traga um fax que eu recebi hoje comentando esta manifestação. Não eram caras-pintadas. Eram marmanjos-pintados (chama a secretária para trazer o fax).Eram uns marmanjos com bandeiras do PT, que eu considero os arruaceiros de plantão. Independentemente disso, gostaria que você registrasse também a manifestação a favor (mostra um abaixo-assinado entregue por perueiros). A imprensa não pode ser tendenciosa e só dizer que houve um movimento contra o Pitta. AE - Pesquisa do InformEstado publicada hoje (ontem) mostra que a maioria da população gostaria que o senhor renunciasse ou que a Câmara aprovasse seu afastamento. Pitta - Se você pegar as pesquisas na época aguda da crise da CPI também havia uma impressão muito negativa da nossa pessoa, da nossa imagem... AE - O senhor não teme o aumento de uma pressão da opinião pública? Pitta - O que venho sendo informado é que está havendo uma crescente perda da credibilidade das declarações da dona Nicéa. Ontem (anteontem) um colega seu veio mostrar um pesquisa instantânea feita pela Internet mostrando que vem caindo verticalmente o porcentual de pessoas que acreditavam que as afirmações eram verdadeiras. Eu não temo uma escalada no processo. Claro que você tem uma componente barulhenta que é a Rede Globo. Ela vai ter de arrumar mais capítulos para esta novelinha que ela lançou com grande estardalhaço na sexta-feira, aliás encontrando até uma protagonista de origem italiana, como a Nicéa. AE - Prefeito, o senhor diz que isso é uma vingança da Rede Globo. Se estas acusações da dona Nicéa fossem feitas a um repórter da Agência Estado, certamente elas seriam publicadas. E não se trataria de uma vingança. Pitta - Agora eu quero que você registre em negrito. Apesar de O Estado de S. Paulo ter se posicionado contra mim, é uma empresa jornalística que respeita a ética e o os padrões do jornalismo. Tenho certeza que jamais o Estado faria uma matéria daquela natureza sem antes ter me ouvido, sem antes ouvir as pessoas acusadas irresponsavelmente... AE - A Globo informou que até destacou um repórter para ouvi-lo na França. Pitta - Desculpe a veemência do termo, mas é men-ti-ra. Tomei conhecimento destas declarações no domingo antes de embarcar para a França. Pedi ao secretário de Comunicação (Antenor Braido) que entrasse em contato com a Rede Globo para saber o teor das declarações e que fôssemos ouvidos. Braido ficou segunda, terça, quarta, quinta e sexta, ininterruptamente tentando contato. Eu, de Paris, deixei dois recados para o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, que não me retornou. Inclusive eu dei o número do meu celular, que eu tinha alugado e que estava ligado 24 horas para qualquer contato e isso não aconteceu. AE - O senhor acha que a dona Nicéa teve alguma motivação política? Pitta - Eu acredito que inicialmente ele tenha sido movida só pelo desejo de vingança, fruto desta separação. Mas ela foi usada pela Rede Globo, que aproveitou este período eleitoral para lançar este veneno sobre nossa pessoa. Uma situação que desencadeia toda uma alteração no quadro político. Existe sim uma componente político. Existe a informação de que dona Nicéa esteve com o governador Covas. A informação não foi dada por mim repito o que ouvi. Não tenho fonte direta no Palácio dos Bandeirantes, mas repito que as informações me parecem coerentes. De que ela foi orientada pelo governo, por alguém da Globo, pelo senhor Chico Pinheiro (repórter da Rede Globo). Veja a gravação do SPTV de ontem (anteontem). Ela comete um ato falho. Quando fala sobre como foi o depoimento, diz: foi de acordo com o que programamos. AE - O senhor será candidato à reeleição? Pitta - A situação de momento não muda o que já falei. Esta decisão vou tomar em maio. AE - Se não for candidato, vai apoiar alguém? Pitta - É uma resposta derivada da outra. Mais adiante teria condições de responder. AE - Se seu governo acabasse hoje, qual teria sido a marca de sua gestão? Pitta - O saneamento financeiro e moral. Esta administração foi a que interrompeu a bola de neve do endividamento público, tendo negociado em termos excepcionais um acordo de rolagem da dívida, nas mesmas bases dos governos estaduais, garantindo a governabilidade para os futuros prefeitos. E a moralidade que impomos à administração. Que gostaria de ver repetida no governo estadual. Aliás, quando se fala em corrupção na Prefeitura, eu sugiro dar entrevistas na frente do Detran e da CDHU, para mostrar que as irregularidades não acontecem só na administração municipal. AE - A imprensa tratou destas irregularidades... Pitta - A imprensa dava ênfase muito maior nas questões da Prefeitura. AE - A decisão do Tribunal de Justiça amanhã sobre sua condenação no caso da publicidade sobre os precatórios pode mudar o cenário? Pitta - O que posso dizer é que confio na Justiça. Mas estou tranquilo. AE - E em relação à sua família? Pitta - Essa é a parte mais dolorosa de todo este assunto. Administrar uma crise política é árduo, mas estamos preparados. Mas dói, machuca muito a ingratidão do ato da minha ex-mulher. Entendo o momento que ela atravessa, mas não há o que justifique após um relacionamento de 30 anos uma atitude como esta. Que envolve até os filhos, que nada têm a ver com isso. Expõe intimidades... AE - Desculpe entrar no assunto, mas dona Nicéa falou sobre sua infidelidade... Pitta - Meu caro. Eu assumi desde o início das declarações da Nicéa, ainda nos EUA, que não faria nenhum comentário sobre nossa vida pessoal. Não vou fazer outras considerações.Permaneço na postura de que roupa suja se lava em casa. AE - Se pudesse voltar no tempo, o que teria feito diferente desde que assumiu? Pitta - Olha. Eu já fiz várias vezes este exercício, nos últimos dias também. Penso que estrategicamente faria a mesma coisa. Jamais a população entenderia que no dia seguinte à minha posse eu viesse a romper com Maluf, afastar o vice e me separar da minha esposa. Fui eleito para dar continuidade àquela administração bem-sucedida. E isso foi feito até o rompimento com o ex-prefeito e o PPB. Ninguém foi mais traído do que eu num período tão curto. AE - Por quem? Pitta - Por parte das pessoas que já relacionei. Só a título de exemplo (risos). Foram tantos... AE - O senhor trocaria a Prefeitura pela família? Pitta - O que estes anos de Prefeitura mostraram é que as pressões políticas são muito grandes e terríveis para uma estrutura familiar, por mais sólidas que elas sejam, como no meu caso. Mas no momento em que nós nos devotamos à vida pública, existe uma doação de si mesmo a esta causa. Quem me possui não é minha ex-mulher, mas as pessoas que confiaram em mim e me trouxeram a esta posição. Se sou prisioneiro ou refém, sou refém desta cidade que me elegeu. Para isso vou ficar aqui até o último dia do meu mandato.





