Não sei se matei. Não vi nada em nenhum jornal
Não sei se matei. Não
vi nada em nenhum jornal
Vivendo num ambiente diferente das crianças e adolescentes de classe média de Foz do Iguaçu, o menino J.B.S., de 10 anos, mora nas ruas. Há dois anos, ele trocou os brinquedos por um revólver calibre 38.
Filho de pais separados, ele conta que quando está na fissura rouba para sustentar o vício. J. já chegou a trocar tiros com a polícia e atirou em uma das suas vítimas em um assalto. Enquanto preparava uma pedra de crack na pipa, ele concedeu a seguinte entrevista à Folha:
Folha do Paraná - Há quanto tempo você usa droga?
J.B.S. - Desde os 6 anos, senhor.
Folha - Qual a droga que você usa?
J. - Depende. Mas gosto mesmo do crack.
Folha - Por quê?
J. - Ele dá uma sensação melhor. Fumei maconha e cheirava cocaína, mas logo deixaram de fazer efeito.
Folha - Mas, qual a razão?
J. - Não sei. Às vezes, fumo crack para esquecer a fome. Uso também para esquecer os problemas.
Folha - Que tipo de problema tem um menino de oito anos?
J. - A fuga da polícia, por exemplo, senhor. Os meus pais, que são caretas e pegam no pé.
Folha - Você mora com os pais?
J. - Agora não. Já morei, mas meu pai chegava bêbado em casa e me batia. Uma vez, tentou me violentar.
Folha - Além de fumar, você vende?
J. - Faço umas correrias de vez em quando, mas não é sempre. Os boqueiros não gostam de piá noiado em volta deles.
Folha - Então, como faz para comprar?
J. - A gente rouba, senhor.
Folha - De quem?
J. - De turistas otários, velhos e mulheres.
Folha - Já fez assalto à mão armada?
J. - Já.
Folha - A arma que você usa é sua?
J. - É de um camarada. Um boqueiro.
Folha - Qual o nome dele?
J. - Eu não sou cagueta. Cagueta não tem vez na favela.
Folha - Matou alguém?
J. - Não sei. Eu e outros boqueiros já trocamos tiro com a polícia. Num assalto, eu atirei. Percebi que a pessoa caiu, mas estava longe e não sei se morreu. Não vi nada em nenhum jornal nem ouvi nada no rádio.
Folha - Pensa em mudar de vida?
J. - Penso, mas não tem jeito, senhor.





