Edson MazzettoSem limiteA professora Maria, com Dionísia Freitas, aluna de 59 anos: disposição de ‘‘ir em frente’’ nos estudosA dona-de-casa Dionísia Freitas, viúva e mãe de 10 filhos, acha que está começando uma nova vida, porque já sabe ler e escrever algumas palavras, aos 59 anos de idade. Antes, ela tinha dificuldade até para embarcar no ônibus certo, porque não sabia identificar a linha percorrida pelos coletivos, escrita nos letreiros. Dionísia é uma das mulheres que participa de programa de alfabetização desenvolvido em Cascavel, com os integrantes da chamada ‘‘terceira idade’’.
O projeto, de responsabilidade do município, foi iniciado há três anos. Já foram alfabetizados mais de 200 idosos, a maioria de origem humilde. Porém, algumas pessoas vão para a escola em vistosas camionetes ou automóveis, o que indica que analfabetismo não é ‘‘privilégio’’ de pobres.
A alfabetização é feita na Escola Almirante Barroso, entre o centro e o bairro Cancelli (zona norte). Estudam ali mais 313 pessoas - crianças do pré à 4ª série do 1º Grau. A convivência entre idosos e crianças é alegre.
‘‘É muito bonito, ver estas pessoas muito vividas se encontrarem pelos corredores com as que estão começando a vida’’, diz a diretora, Cecília Gighi. Na sala de aula, os idosos são ensinados por professoras jovens.
Márcia Choptian, 26 anos, cuida diretamente da alfabetização. Valdirene Marques Ferreira, 19, é responsável pela terceiras e quartas séries (alunos que já passaram pelo processo de alfabetização). As professoras também têm grande motivação para o trabalho e a recompensa dos resultados obtidos.
Atualmente, são 72 idosos, a maior parte mulheres, donas-de-casa que têm mais facilidade para frequentar aulas durante o dia. Há turnos de manhã e à tarde.
‘‘A evasão tem sido insignificante’’, comemora a diretora da Secretaria Municipal de Educação, Diná Machado. Porém, nos três anos do projeto a frequência às aulas não é tão assídua por causa dos afazeres de casa das mulheres. A prefeitura oferece material escolar e até mesmo vale-transporte para os mais carentes.
Os idosos geralmente são alfabetizados em seis meses e no máximo em um ano - tudo depende da capacidade de aprendizado. Alguns só conseguem escrever o nome depois de meses. Dionísia Freitas, por exemplo, conta que sempre se ‘‘apertava’’ para sair às ruas da cidade, porque não conseguia identificar endereços, e, para embarcar no ônibus, precisava pedir ajuda a outras pessoas. Algumas pessoas em processo de alfabetização eram até proibidos pelas próprias famílias de sair às ruas.
‘‘Hoje, não me aperto mais’’, diz Dionísia. Ela consegue ler inclusive placas de publicidade. ‘‘Desde que não sejam com letras muito grandes e separadas, porque dificulta, por enquanto’’.
Ela reconhece ter mais dificuldades que seus netos, que são pequenos, mas está empolgada com a chance que teve de ir à escola, mesmo já com idade avançada. Como a professora tem demonstrado paciência, Dionísia Freitas quer ir em frente, até conseguir dominar as partes elementares da leitura e escrita.
Uma mulher, que preferiu não informar o nome, conta que trabalhou durante vários anos como auxiliar de serviços gerais sem que o patrão soubesse que era analfabeta. Ela sabia apenas escrever o próprio nome e, quando havia necessidade da leitura ou escrita, o que raramente acontecia, ela disfarçava.
Assim se manteve no emprego. Segundo a mulher, que acabou alfabetizada, se o patrão soubesse que ela era analfabeta, talvez tivesse sido despedida’’. Entre os idosos que estão iniciando ‘‘uma nova vida’’ com a alfabetização, há um homem com 69 anos.

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