Curitiba - Depois de três adiamentos seguidos, a gaúcha Valentina de Andrade sentou ontem no banco dos réus no Fórum de Belém, acusada de liderar uma seita responsável pela castração e assassinato de dois meninos e lesões corporais em outros três no município de Altamira, região sudoeste do Pará. Os crimes aconteceram entre 1989 e 1993. Os meninos tinham idades entre oito e 14 anos. Valentina, que tem 72 anos, alega inocência. Em depoimento ontem, que durou mais de três horas, ela disse que acreditava em Deus e negou participação ou conhecimento da realização de magia negra com o sacrifício humano na seita Lineamento Universal Superior (LUS). ''Não sou capaz de matar uma galinha'', disse.
Cerca de 300 pessoas participaram ontem do início do julgamento, que contou com o depoimento de Valentina e a apresentação de mais de oito horas de fitas de vídeo. Do lado de fora, outras 40 pessoas fizeram protestos com carro de som, pedindo a condenação da acusada. A defesa, comandada pelo advogado curitibano Cláudio Daledone Júnior, pediu a leitura de 50 dos 73 volumes do processo criminal. Ao todo são mais de 20 mil folhas. A previsão é a de que o julgamento demore entre cinco e 15 dias. ''Tudo vai depender do desenrolar da leitura dos autos e da apresentação de provas'', afirmou o advogado em entrevista à Folha.
Daledone juntou aos autos diversos documentos que demonstrariam que Valentina não estava em Altamira em nenhum dos episódios narrados pelo Ministério Público (MP) e pela Polícia Federal (PF). Ela estaria em Londrina, cidade onde mora há 15 anos. ''Vamos demonstrar com provas que ela não tinha conhecimento desses casos'', afirmou ontem o advogado, que pesquisou sobre a morte de meninos em todo o Brasil.
O advogado chegou a ir pessoalmente a estados como Maranhão e Goiás, onde teria comprovado que os casos de magia negra continuavam acontecendo. ''Mesmo depois dos fatos narrados e denúncias contra minha cliente, as mortes continuaram. Isso é mais uma prova de que ela não participou desses bárbaros crimes'', considerou.
O julgamento está sendo conduzido pelo juiz Ronaldo Valle. Trinta e sete policiais militares fazem a guarda do fórum, além de guardas municipais. A previsão é de que sejam gastos pelos cofres públicos R$ 13,4 mil com a hospedagem e alimentação das testemunhas que tiveram que ser deslocadas de Altamira para Belém. (Com Agência Folha)

mockup