Buenos Aires, 28 (AE) - Sempre otimista, desta vez a Fundação Capital chamou a atenção ao apresentar um relatório sombrio sobre a economia argentina. Com o título "Não se visualiza saída da recessão", o relatório sustenta que o ponto de inflexão da crise para recuperar a economia será prolongado muitos meses além do previsto. A Fundação também considera que as crises externas não podem mais servir de desculpa para a recessão argentina, já que os índices da economia demonstram que agora os motivos seriam puramente internos. Entre as principais causas estão "a deterioração progressiva da área fiscal" e a"perda de competitividade".
Segundo a Fundação, não estão entrando capitais estrangeiros, o que estanca o nível de depósitos e de monetarização. Outro fator é que as reservas, créditos e taxas de juros condicionam de forma negativa o início da recuperação econômica. Além disso, o risco-país piorou e aumentou a proporção de depósitos em pesos em relação aos de dólares.
Para o economista Ricardo López Murphy, esta recessão se parece à de 1930. Ele sustenta que no ano que vem as províncias não receberão dinheiro, e que elas mesmas vão ter que fazer seus próprios ajustes, chegando no total a 2% do PIB nacional. Conseguir dinheiro para o Estado através de novos impostos, será impossível: "as pessoas estão fartas", afirmou.
O ex-secretário da Fazenda Mario Brodersohn declarou que as multinacionais enviam remessas de US$ 3 bilhões por ano aos seus países de origem, e que os programas de investimentos das privatizações iniciadas entre 1991 e 1993 já estão acabando. Segundo Brodershon, não entrará dinheiro "novo" no país.
Os índices da economia argentina são ilustrativos: prevê-se que a arrecadação fiscal em junho cairia 11% em relação ao mesmo mês do ano passado. Além disso, em maio a produção industrial foi reduzida em 10,2% em relação ao mesmo mês de 1999. No primeiro trimestre as exportações caíram 13%, comparado com o ano anterior.
No setor automotivo, a preocupação avança: as vendas de automóveis diminuíram 31% nos cinco primeiros meses de 1999 em relação ao mesmo período de 1998. Entre janeiro e maio deste ano
a produção de veículos foi reduzida em 50% em relação ao ano passado.
A população já percebeu a profunda recessão em que o país está mergulhando: segundo uma pesquisa da consultora SEL (Sociedad de Estudios Laborales), 84% dos argentinos consideram que até o fim do ano a situação estará igual ou pior.
Essa sensação já pode ser medida na vida real: o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) anunciou que a queda do consumo já não se restringe mais aos eletrodomésticos, mas também está atingindo os produtos da cesta básica. Em relação ao ano passado, a venda destes alimentos diminuiu 6%, embora os preços tenham sido reduzidos em 4%.

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