Não há motivos para se celebrar
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quarta-feira, 21 de abril de 1999
Por Michael Elliot 
Washington, 22 (AE-NEWSWEEK) - Ela foi apresentada anteriormente como uma celebração, a maior reunião de cúpula já promovida pelos Estados Unidos. Cerca de 1.700 dignatários de 44 países devem se reunir em Washington a partir desta sexta-feira para marcar o 50º aniversário de fundação da aliança atlântica. Com uma "Gala em Honra da Otan" e festas em abundância, os encontros deveriam brindar a parceria entre as democracias norte-americanas e européias que venceram a Guerra Fria.
Mas... Com a Otan atolada numa horrível guerra contra a Iugoslávia de Slobodan Milosevic, dificilmente celebrações estarão na ordem do dia. Enquanto suas limusines seguem em caravana de um evento diminuído de importância para outro, líderes da Otan terão bastante tempo para refletir sobre suas novas circunstâncias. Kosovo mudou tudo; e se algo de bom pode sair desses encontros esta semana, todos eles em Washington - anfitriões americanos e convidados europeus - deveria ser uma reflexão sobre onde sua aventura primaveril (boreal) os levou.
Kosovo é um novo tipo de guerra. Ela não está sendo travada em defesa de qualquer definição convencional de candentes interesses nacionais. A linguagem é rebuscada para assegurar que uma viciosa mas localizada guerra civil no sudeste da Europa ameaça a segurança dos Estados Unidos. Na verdade, é difícil defender que a violência nos Bálcãs apresenta um perigo imediato para as nações dos aliados da América na Europa Ocidental. Gostemos ou não, os Bálcãs são um lugar à parte. Em 1990, o último ano de paz na região, a ex- Iugoslávia absorveu apenas um por cento das exportações da Alemanha Ocidental; mais turistas franceses e britânicos visitaram a Tailândia e o Marrocos do que a Iugoslávia. A Otan está em guerra por razões humanitárias, não por razões de segurança. Como o primeiro-ministro britânico escreveu a semana passada na NEWSWEEK, "Neste conflito estamos lutando não por território, mas por valores".
Pode ser realmente que "nós" estejamos lutando por "valores". (O exército iugoslavo, deve ser destacado, está lutando não por valores mas por território - para manter uma província que mesmo os países da Otan concedem é legalmente parte da Iugoslávia). Mas "valores" é um conceito escorregadio pelo qual se basear para derramar sangue e tesouros. Razoavelmente, homens e mulheres civilizados podem discordar sobre por quais valores vale a pena morrer.
Por exemplo: Num recente discurso na Sociedade Americana de Editores de Jornais, Bill Clinton disse: "Enfrentamos uma grande batalha entre as forças da integração e as forças da desintegração; as forças do globalismo versus tribalismo; da opressão contra consentimento". Belas palavras, mas como um guia para o desenvolvimento da vontade nacional, isto é desesperador. É difícil imaginar uma sociedade que pelos padrões americanos oprime mais sistematicamente metade de seu povo - todas suas mulheres - do que a Arábia Saudita. Iremos agora nos engajar numa "grande batalha" com os sauditas? Se não, por que não? Se a maioria dos moradores de Quebec decidir se separar do Canadá, seria isto "tribalismo"? Seríamos então obrigados a pegar em armas para defender o "globalismo"? (Apenas Clinton, talvez, saiba como uma batalha entre "integração" e "desintegração" deve ser conduzida).
Existe um fácil contra-argumento a isto. Claro, o pessoal dos valores garante, existem tons cinzas, mas algumas situações são preto e branco - lugares onde a opressão por um governo a seu próprio povo é tão vil que o mundo exterior é compelido a agir. Kosovo, talvez, seja um exemplo de tal horror. Mas se governos democráticos vão colocar a vida de homens e mulheres jovens em risco, esses governos têm o dever de fazer mais do que trabalhar caso a caso. Precisamos de um padrão que nos permita julgar quais das muitas catástrofes humanitárias do mundo valem uma guerra geral; até agora estamos longe de ter um.
Ainda, talvez nada disto importe. Em Kosovo, depois de tudo, os Estados Unidos e seus aliados da Otan decidiram que NÃO vale a pena colocar jovens vidas em muito risco - é por isto que não estamos lutando uma guerra terrestre. Seria bonito se os líderes da Otan esta semana admitissem honestamente as consequências de sua decisão. Colocado claramente, para proteger as vidas daqueles nas forças armadas da Otan, estamos preparados para sacrificar civis sérvios (e kosovares). Não podemos saber quantos já morreram em "danos colaterais" da guerra aérea - talvez dezenas mais do que centenas. Mas se os bombardeios continuarem por meses, haverá milhares de mortos no solo. Os bombardeios da Otan, naturalmente, são tão precisos quanto possam ser. (O bombardeio aéreo alemão de Belgrado em 1941, em contraste, deixaram 17.000 mortos em apenas uma noite). E como que para sublinhar o cuidado com que a guerra aérea está sendo conduzida, Clinton disse na semana passada: "Não temos nada contra o povo sérvio". De algum modo, alguns suspeitam que "o povo sérvio" vê as coisas de modo diferente.
Uma nova forma de guerra, travada de uma nova maneira - quando eles tiverem absorvido essas lições, os dignatários em Washington podem considerar mais uma instância na qual Kosovo é novo. Esta é uma guerra cuja conclusão não pode ser definida. Pelas últimas três semanas a imprensa tem estado cheia de artigos sobre Kosovo como o "jogo da decisão" da crise dos Bálcãs. Esta idéia deveria ser banida. Se as armas se calarem esta semana, nada terá terminado; os Bálcãs não estarão em paz. No melhor dos finais possíveis, as forças da Otan (talvez com as russas) irão policiar dois protetorados - Bósnia e Kosovo - por anos, talvez décadas. Se as coisas saírem erradas, forças de paz serão necessárias também na Albânia, Macedônia e Montenegro; e a Sérvia, a maior nação da região, será um lugar descarrilado, habitado por um povo amargurado alimentando uma sensação de injustiça.
Tal futuro pode valer a pena, um preço a ser pago se o mal incontestável de Milosevic tem de ser erradicado. Talvez. Mas isto não é motivo algum para se celebrar.


