'Não há investimento para atender o aluno'
Grandes Rios - O presidente do Comitê Estadual de Educação no Campo, Joaquim Gonçalves da Costa, acredita que o baixo índice de participação de alunos de escolas rurais paranaenses no Enem não representa necessariamente que os estudantes do campo não têm interesse pelo exame.
''Em municípios pequenos, só há uma ou duas escolas estaduais (que oferecem o Ensino Médio). Dessa forma, muitos alunos que moram em áreas rurais estudam em escolas urbanas'', aponta o professor. Ele considera que a falta de investimentos em educação no campo é um problema nacional, que acaba empurrando os jovens para escolas urbanas.
''A política educacional para o meio rural tem uma dívida histórica. Não houve investimento suficiente para atender o aluno no lugar onde ele vive. As escolas municipais, que oferecem o Ensino Fundamental, ainda têm muita presença nas comunidades rurais. Mas, conforme os estudantes ascendem na escolaridade, a oferta de estabelecimentos de ensino diminui. Quando chegam ao Ensino Médio, muitos jovens têm que sair das comunidades onde vivem'', lamenta Costa. ''Isso acaba 'matando' muitas comunidades. O campo está envelhecendo porque os jovens estão indo para as cidades.''
O presidente do comitê cita que um parecer do Conselho Estadual de Educação, do ano passado, determina a adoção de uma identidade das escolas rurais no Paraná. ''Por exemplo, se uma escola está localizada em um distrito e é identificada como urbana, mas atende 90% de estudantes do campo, ela tem que atender ao perfil desse público. Queremos que seja identificada essa característica. Isso permitiria projetos pedagógicos e formas de financiamento mais adequados'', argumenta Costa.
O universo das 70 escolas públicas rurais do Paraná que tiveram média calculada no Enem do ano passado apresentou um dado preocupante. Apenas 19 delas (27% do total) tiveram desempenho semelhante ou superior à média nacional por estabelecimento de ensino, que foi de 537,04.
Em nota, a Secretaria de Estado da Educação (Seed) informou que está analisando dados de edições anteriores do Enem e também os de 2010 para definir o planejamento de ações da pasta. Mas salientou que ''não há dúvidas de que o desempenho dos estudantes da rede pública de ensino deve melhorar'' e adiantou que ''está organizando um grande debate sobre os resultados do Enem, a ser realizado em breve, com universidades, estudantes, entidades de classe e diversos setores da sociedade civil organizada''. A Seed não se manifestou especificamente sobre o desempenho das escolas públicas de localidades rurais.
Um estudo do ano passado, contratado pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) e realizado por Ibope, Instituto Paulo Montenegro e Instituto CNA, detalhou falhas em escolas rurais em 10 unidades federativas: Paraná, Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Tocantins. Entre outros dados, a pesquisa mostrou que em 70% dos estabelecimentos de ensino analisados não havia biblioteca, 66% deles não tinham computador e em 66% das escolas os professores recebiam remuneração de no máximo dois salários mínimos.(F.G.)





