Curitiba- ''Ouvi um estrondo e tudo desmoronou''. Assim começaram os momentos mais dramáticos do terremoto que afetou o Haiti para a irmã Rosângela Maria Altoé, que acompanhava a Zilda Arns. A religiosa viajou com a coordenadora da Pastoral da Criança Internacional como intérprete e secretária. No dia do terremoto, ambas estavam em um centro de formação. Zilda Arns havia realizado uma palestra para 150 pessoas e conversava com um padre.
''Ela se dirigiu com ele para as escadas e eu me virei para pegar os materiais que havíamos trazido'', relatou. Foi nesse momento, contou, que se ouviu um forte estrondo e o prédio começou a desmoronar. Segundo relato do padre que conversava com Zilda Arns a médica deu um passo para a direita na hora do tremor e foi atingida pelos escombros. ''O corpo dela tinha um ferimento grande na cabeça'', disse Rosângela, que acredita que a fundadora da Pastoral tenha morrido imediatamente após o tremor.
Segundo a freira, logo após o estrondo, a laje em que ela estava ruiu. ''A laje cedeu e eu fui escorregando. Quando cheguei a uma parede, pulei. E fui pulando até conseguir ficar em pé'', lembrou. ''Nesse momento subiu uma grande nuvem de pó''. A poeira, contou, sufocava os sobreviventes. ''Era como se tivesse nos secado por dentro'', relatou.
Daquele momento, logo após o primeiro tremor, a freira lembra dos gritos que ouviu. ''Ao lado do prédio em que estávamos havia uma escola. Eu escutava os gritos, o choro das crianças'', contou. ''Não dá para esquecer os gritos'', completou. Segundo Rosângela, o horror estava estampado no rosto das pessoas, que tomaram as ruas em busca de informações e socorro.
Rosângela contou que a primeira coisa que viu no prédio foi a parte da laje em que estava que não havia desabado e o padre William, que momentos antes conversava com Zilda Arns. Mesmo confiante na possibilidade de encontrar a médica com vida, a freira pensou no pior. ''Pensei que vai ser um milagre muito grande se ela estiver viva'', disse. ''Eu tentei voltar para o prédio, mas deu outro tremor e todos que tentavam entrar voltaram assustado para a rua'', relatou.
O que se seguiu, contou Rosângela, foi o caos. Ela foi para a base do Exército brasileiro em Porto Príncipe acompanhada de três soldados brasileiros. ''Levamos quatro horas para chegar lá'', relatou. ''A intenção era buscar socorro'', disse.
Segundo a irmã Rosângela Maria Altoé, a expectativa da médica Zilda Arns com a viagem ao Haiti era grande, já que, desde agosto do ano passado, teve vários contratempos que a obrigaram a adiar algumas vezes o embarque.
Segundo o senador Flávio Arns (PSDB), sobrinho de Zilda Arns, o corpo da médica foi encontrado na manhã da quarta-feira, dia 13, por integrantes da Força de Paz brasileira no Haiti e pela embaixatriz Roseana Teresa Aben-Athar Kipman. ''Ela procurou pela doutora Zilda, sem sucesso. Então o padre William apontou o lugar exato no qual ela teria caído, mas os soldados só avistaram os pés dela'', contou. A equipe então retirou os escombros e conseguiu recuperar o corpo da médica.
O senador agradeceu o Governo Federal pelo empenho no transporte do corpo de Zilda Arns para o Brasil. E o empenho da Força de Paz em encontrá-lo. ''Eles realizaram um trabalho extraordinário'', elogiou. Arns também afirmou que a morte de Zilda Arns ''talvez signifique uma transformação na vida para pessoas no Brasil e no Haiti''.

mockup