Cairo (AE-AP) - É e não é o milênio de todos. Certamente comemorado na noite anterior ao Gregoriano de 2000, registrado em qualquer calendário nos escritórios do Cairo, mesmo aqueles em escrita árabe, com seus arcos e ângulos. Mas é também 1420 no Egito e no Oriente Médio, em sua maioria muçulmano, que contam os dias pelo calendário lunar desde o dia em que o profeta Maomé deixou Meca em direção a Medina.
A comunidade judaica no Egito, que já foi muito grande, definhou para poucas famílias, cujo calendário virou para 5759 em setembro.
Há também os cóptas, a maior minoria egípcia. Eles não concordam nem sequer com os outros cristãos e celebram o ano novo no dia 11 de setembro, o aniversário do primeiro martírio de um cristão egípcio sob o império romano em 284.
Mas na era global, Gregório é o rei. O calendário de 417 anos que faz a contagem a partir do nascimento de Cristo une as diversas comunidades do Egito. Junto com as invenções mais recentes como o telefone, a televisão e a Internet. Ele os coloca em contato com a rede internacional de finanças, comunicações e entretenimento.
Quem não quer ser parte do mundo na medida em que se aproxima uma marco histórico? Quem pode escapar?
"Há o sentimento geral de que o novo milênio trará novos desafios para a sociedade", disse o sociólogo Nabil Abdul Fattah. "A elite egípcia, a elite política, aceitou o significado cultural, o simbolismo cultural do novo milênio".
Mesmo "as pessoas nas aldeias que têm dinheiro para comprar televisores assistem a programas estrangeiros e sabem o que está acontecendo no resto do mundo", afirma Fattah.
Longe do Egito, malaios da cidade entenderam o significado do ano 2000 e planejam lotar restaurantes, night clubs e discotecas no dia 31 de dezembro. Fornecedores de champanhe advertiram aqueles que pretendem comemorar a virada do ano no segundo maior país muçulmano da ásia para fazerem estoques, temendo que os suprimentos da bebida possam acabar. Nesta atmosfera, não é espantoso que poucos tenham ouvido quando o partido fundamentalista pan-islâmico sugeriu recentemente que o calendário gregoriano fosse substituído pelo islâmico.
A Índia, conhecida por seu ódio contra a influência ocidental, aceita o calendário mundial. "Todo mundo está seguindo o calendário cristão, que já não é mais apenas cristão", diz Vishnu Hari Dalmiya, presidente do nacionalista Conselho Mundial Hindu.
Dalimya planeja celebrar o ano 2000 com uma viagem para a cidade sagrada de Vrindavan, no norte da Índia, onde, de acordo com a fé hindu, o deus Krishna passou sua infância. O hinduísmo, religião de muitos deuses e muitas interpretações, possui, naturalmente, uma multiplicidade de calendários. De acordo com um deles, este é o ano 2056, mas outro diz que estamos em 1921. Em ambos os casos, trata-se meramente de um momento em uma enorme e interminável espiral do tempo.
O antigo Khmer, atual Camboja, partilha desta mesma cosmologia. De acordo com este povo, nós estamos agora nos primeiros anos do ciclo Kali Yuga, que dura 432.000 anos, o mais amargo dos quatro períodos através dos quais o mundo circula continuamente.
O rei Suryavarman do Khmer construiu Angkor Wat no século 12, na esperança de encurtar o tempo e iniciar uma era dourada. A antropóloga Soizick Crochet disse que as festividades de Angkor Wat podem nos dar idéia do estilo destas celebrações de virada de ano. "Elefantes e milhares de cabeças de gado foram sacrificados para alimentar as pessoas", disse ela. O rei Suryavarman sentiria sem dúvida a falta de algo nos planos das festas para a virada do ano e dos concertos de rock.
Os empresários egípcios querem colocar um pouco dos antigos enigmas nas modernas celebrações do milênio. O compositor francês de óperas eletrônicas, Jean-Michel Jarre, estará ao pé da grande pirâmide de Quéops, próxima ao Cairo, na passagem do ano. O show irá culminar nas primeiras horas do dia 1º de janeiro com a iluminação da nova pedra chapeada de ouro que será colocada no topo da pirâmide.
"Esta não é uma idéia moderna, é antiga. Os faraós fizeram isso", diz Mostafa El-Tawansy, porta-voz da àpera do Cairo, que está co-produzindo a ópera.
Os arqueólogos dizem que depois de 30 anos de trabalho, a pirâmide de Queóps foi inaugurada cerca de 5.000 anos atrás, com um cortejo real e a instalação de uma pedra folhada a ouro em seu topo. Há muito tempo a pirâmide perdeu esta pedra superior. Ninguém sabe ao certo se o culpado foi a erosão ou assaltantes. Ao montar um grande espetáculo para substituí-la, o Egito relembra sua antiga civilização e dá um passo em direção ao futuro.
Mohamed Ghoneim, Ministro da Cultura responsável pela preparação do espetáculo, lembrou que o ano novo cai durante o Ramadã, mês sagrado de jejum que é uma das mais importantes cerimônias do islamismo. "O Egito tem o privilégio de celebrar o Ramadã e o ano 2000", disse ele. "Nós estamos declarando o Egito como parte do mundo, enquanto afirmamos nossa própria identidade."
Em algumas partes do mundo, porém, identidades locais são mais importantes do que a loucura global do ano 2000. Muitos iranianos, por exemplo, raramente prestam atenção ao calendário gregoriano. Para eles, estamos em 1378, de acordo com um cálculo único, estranho mesmo entre os países muçulmanos. O ano novo cai na primavera, a estação da renovação das flores.
"Nós temos nossas próprias tradições e costumes, nossa própria religião, nós temos a melhor estação para o ano novo", disse Amir Moghaddan, um engenheiro civil de Tehran. Com a chegada do ano gregoriano de 2000, ele diz: "Não acredito que possa encontrar qualquer razão para celebrá-lo." * Colaboraram os repórteres: Sean Yoong em Kuala Lumpur, Vijay Joshi no Cairo, Patrick McDowell em Bangcoc, Neelesh Misra em Nova Délhi e Afshin Valinejad em Dubai.

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