Nada como ouvir um latido em dó sustenido
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domingo, 05 de fevereiro de 2012
Davi Baldussi <br> Reportagem Local 
Londrina - ''Eu ouço o som e é como se ele próprio já falasse sol, dó ou mi.'' Sara Cristina Secco Delallo tinha 3 anos quando sua mãe descobriu que ela possuía ouvido absoluto, um dom raríssimo. Quem tem é capaz de identificar diferentes frequências sonoras. Isso significa que quem aprende música consegue separar essas frequências em notas musicais.
''Minha mãe dava aulas de piano no fundo de nossa casa, e desde recém-nascida eu ficava ali do lado do piano. Aí com 3 anos ela me ouviu cantar Marcha Soldado, mas só dizendo as notas'', conta.
Na infância Sara lembra que uma de suas brincadeiras prediletas era identificar as notas em sons do dia a dia - desde um canto de pássaro até o click de uma máquina fotográfica. ''Quando eu era adolescente gostava de me gabar que tinha ouvido absoluto, mas com o tempo achei melhor ser discreta. Porque a gente erra. Numa apresentação, por exemplo, existe toda uma ansiedade e quando alguém sabe que eu tenho ouvido absoluto surge meio que uma pressão, as pessoas muitas vezes querem testar'', aponta.
Sara tem um irmão mais velho e outro mais novo. Ela conta que os três tiveram uma infância semelhante em Astorga (Norte), com um contato precoce com a música. Mas apenas ela tem ouvido absoluto. ''Acredito que nasci com essa predisposição, mas é preciso muito treino. Li uma vez numa revista que o ouvido absoluto está no gene do pai. Meu pai tem uma facilidade imensa para línguas, ele é professor de inglês, talvez ele pode até ter essa predisposição para ouvido absoluto e nem saber pois nunca se envolveu com música'', aposta. Já os avós dela eram agricultores.
Como a mãe dela dava aulas de piano, este foi o primeiro instrumento que Sara aprendeu. ''Mas acho o piano muito solitário, queria tocar em banda de rock, então aprendi guitarra. Como tem um monte de guitarrista, fui para o baixo'', relata ela, que se formou em Música pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e chegou a dar aulas por um ano.
Atualmente, Sara, 29 anos, trabalha num estúdio e toca em três bandas. ''Ouvido absoluto não ajuda em nada na técnica necessária para aprender um instrumento. Por exemplo, eu nunca vou tocar uma flauta'', brincou ela, que aponta como suas músicas favoritas Red, de King Crimson, My nam is Nud, de Primus, e Cult of Personality, do Living Color.
Ela explica que o processo para identificar um som não é tão simples. ''Toda pessoa com boa audição consegue ouvir sons de 20 a 20 mil hertz. Aqui no Ocidente dividimos os sons em 12 notas, mas na natureza surgem sons de variadas frequências. Quando ouço um barulho próximo a 100 hertz, sei que esse som é semelhante a um dó, por exemplo'', explica.
Apesar do dom, Sara acredita que nos últimos dois anos seu ouvido absoluto ''enferrujou'' um pouco. ''Tive meu primeiro filho então me afastei um pouco da música. Por isso acredito que só a predisposição genética não adianta. É preciso estar em contato com música'', diz. Com um ano, Emílio, filho de Sara, ainda não cantou Marcha Soldado, mas já faz aulas de música.


