Na Rússia, ser hacker não é um passatempo, é um emprego
Na Rússia, ser hacker não é um passatempo, é um emprego9/Mar, 11:39 Por Angela Charlton Moscou (AE-AP) - Alexei Rayevsky entendeu logo cedo o quão lucrativo poderia ser um hacker de computador. Quando era um adolescente, ele entrou numa rede corporativa, mostrou às empresas suas proezas e ofereceu-se para deixar seus sistemas mais seguros. Ao contrário de seus semelhantes em países mais ricos, a maioria dos hackers russos não é apenas motivada pelo temor subversivo de descobrir códigos e preocupar gigantes corporativos ou agências governamentais, eles são motivados por bolsos vazios. É óbvio que os hackers russos também sabotam sistemas por brincadeira ou por razões políticas e anunciam suas travessuras em irreverentes web sites. Eles não dizem como gastam o resto do seu tempo: ganhando dinheiro, geralmente ilegalmente, algumas vezes com repercussões pelos quatro cantos do mundo. Alguns dos maiores crimes de computador envolveram russos, entre eles invasões a bancos multinacionais e ao Pentágono. A maioria dos hackers russos, porém, são piratas de software trabalhando no próspero mercado negro do país. Os recentes ataques a computadores de importantes companhias de Internet, entre elas o Yahoo! e Amazon.com, aumentaram os temores sobre segurança entre empresas e políticos norte-americanos. "A ameaça pode vir de qualquer lugar. Mas o perigo específico que vem da Rússia é a motivação financeira", disse John Vranesevich, um consultor de segurança em computadores norte-americano. O site da sua empresa, a AntiOnline, cuja matriz fica na Pensilvânia, sofreu um ataque proveniente da Rússia em agosto do ano passado. Rayevsky está entre os poucos russos que encontraram um meio legítimo de transformar seus conhecimentos de hacker em dinheiro: ele trabalha para o Aladdin Knowledge Systems em Moscou, testando a segurança dos computadores dos clientes da empresa. "Todos os hackers têm vontade de provar que sabem tudo. Mas os hackers russos são também profissionais. É seu trabalho" disse Rayevsky. "Observando nossa economia é fácil de entender porque muitos hackers trabalham ilegalmente". Bons estudantes de computação nos EUA são inundados com ofertas de trabalho e bons pagamentos. Muitos iniciam seus próprios negócios na web ainda enquanto estão na escola. Hackers norte-americanos são rotineiramente recrutados por empresas de segurança de computadores. Na Rússia, trabalhos lucrativos são escassos, particularmente depois do colapso do mercado financeiro em agosto de 1998. A maioria dos russos não tem acesso à Internet e poucos têm computadores em casa. Estudantes de ciências da computação têm que se virar com hardware ultrapassado e linhas telefônicas extremamente ruins. Mesmo assim, o talento russo para computadores é abundante, graças à forte tradição em educação científica e treinamento técnico. Um sociável estudante moscovita de 22 anos que apresenta-se pelo nome de Radon diz que atacou dezenas de web sites governamentais. Dentre suas travessuras mais fúteis, diz ele, está o fato de ter colocado faixas pornográficas nos sites do departamento de polícia russo. Perguntado sobre o quanto ganha, ele baixa sua voz e diz com um malvado brilho nos olhos: "Eu trabalho em Gorbushka". Em Gorbushka, um mercado a céu aberto que se espalha por um parque no oeste de Moscou, mesas estão cheias de vídeos, CDs e software e praticamente todo o material é falsificado. Cerca de 80% dos softwares usados na Rússia são pirateados, de acordo com o departamento de crimes de computadores do Ministério do Interior. Randon, cuja condição para falar foi a de que apenas seu pseudônimo on-line fosse divulgado, disse que pode ganhar até US$ 200 por dia copiando um novo programa de uma companhia como a Microsof. Sua cópias são então vendidas por poucos dólares cada em Gorbushka, apenas uma fração do que custariam legalmente. Seus ganhos são impressionantes na Rússia, onde a renda média de um funcionário público é de cerca de US$ 55 por mês, como divulgaram dados recentes do governo. As agências que cuidam do cumprimento da lei da Rússia tentaram derrubar a pirataria e crimes mais sofisticados ligados aos computadores, mas observadores disseram que faltam especialistas, dinheiro e até mesmo computadores. Isso faz dos hackers russos seres surpreendentes arrojados, diz Vranesevich. "Eles nem sequer tentam esconder suas identidades", diz ele. "Eles usam seus nomes verdadeiros para abrir contas da Westen Union". Outros exemplos de ataques a computadores envolvendo russos: - um matemático de São Petesburgo, Vladimir Levin, transferiu US$ 12 milhões de contas bancárias do Citibank ao descobrir as senhas. Uma corte da Flórida o condenou a três anos de prisão em 1998; - no mês passado, um russo de 19 anos roubou diversos números de cartões de crédito de uma loja da Internet e pediu US$ 100 mil de resgate. Quando o dinheiro foi negado, ele publicou 25 mil números num web site; - um grupo de hackers, dentre eles dois russos, invadiu o sistema de computadores do Pentágono em 1997 e roubou softwares que coordenam o Sistema de Posicionamento Global do exército, que são utilizados para dar a direção dos alvos aos mísseis. A Rússia continua a ter hackers políticos. Ambos os lados envolvidos na guerra da Chechênia tiveram seus computadores sabotados. Os hackers divertiram-se muito resistindo aos esforços do principal sucessor da KGB, o Serviço de Segurança Federal (FSB), em vigiar a Internet. Alguns atingiram alvos nada usuais, tais como o ataque no início deste ano aos sites de imobiliárias na Flórida e no Colorado quando assinaram "anti-FSB".





