Na onda dos tarjas pretas
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de outubro de 2005
Angélica Santa Cruz<br> Agência Estado 
Marcos Valério Fernandes de Souza e sua mulher, Renilda, enfrentaram horas de depoimentos na CPI dos Correios com a ajuda de comprimidos de Rivotril. Rogério Tadeu Buratti desfiou suas denúncias na CPI dos Bingos amparado por um Lexotan. A publicitária Zilmar Fernandes, sócia de Duda Mendonça, usou meio Frontal para sobreviver à sabatina. Jeany Mary Corner - a chefe das recepcionistas - anda sob os efeitos de Frontal e Lexapro. José Carlos Batista, o dono da empresa Guaranhuns, começou a falar na CPI do Mensalão tão tenso que precisou da ajuda de um Rivotril.
E Delúbio Soares enfrenta a crise política que ajudou a provocar com o uso eventual de Lexotan. Para quem defende a tese de que tudo o que acontece em Brasília é reflexo da sociedade, o uso corrente de remédios controlados por esses personagens pode até servir de alegoria para a multidão de brasileiros que já admitem sem constrangimentos que precisam de tarjas pretas nas horas difíceis. Ou simplesmente para conseguir levar a vida.
O consumo de remédios controlados costuma vir acompanhado de debates sobre até que ponto o ser humano tem o direito de domar as dores da alma empurrando compostos químicos para dentro do organismo. Mas a movimentação nas prateleiras das farmácias mostra que aumenta o número de médicos e pacientes apostando que, sim, a farmacologia deve ser colocada a serviço da calmaria interior.
Levantamento do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuário de Medicamentos (Idum) e do Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal mostra que os brasileiros consumiram 115 milhões de caixas de medicamentos controlados entre 2003 e 2004. Só entre os tranqüilizantes, o consumo foi de 36 milhões de caixas.
É uma numeralha que comprova aquilo que o olhômetro já mostrava. Qualquer um faça o teste: pergunte à sua volta quem já tomou, ou toma, tarja preta. Muita gente usa e está certíssima. Bem utilizados e com acompanhamento médico, esses remédios só trazem bem-estar. É preciso tratar do tema sem hipocrisia, porque ele está aí e envolve pessoas que utilizam com responsabilidade, afirma Rubens Pitluk, psiquiatra do Hospital Albert Einstein e criador de um site que responde dúvidas sobre o assunto. (www.mentalhelp.com).
Os medicamentos que regulam humores ou disfunções do comportamento explodiram nos anos 80, com o surgimento de uma segunda geração de drogas. Era o período em que o Lexotan segurava a barra dos estressados, melancólicos e afins. Hoje a droga da moda é o Rivotril. Lançado nos anos 60 para tratamento da epilepsia infantil, ele se revelou eficaz no combate à Síndrome do Pânico e passou a ser prescrito pelos médicos por fazer efeitos prolongados em dosagens baixas em quem precisa se acalmar.
Remédios de tarja preta podem causar efeitos colaterais medonhos. Consumidos em doses exageradas, eles trazem perda de memória, desinteresse sexual, insônia ou reações contrárias às pretendidas. Mas um dos piores problemas é obrigar quem tentava se livrar da depressão, ansiedade ou angústia a conviver com o inferno de um vício.
Drogas do gênero podem causar dependência química ou psicológica. Mal administrados, também provocam tolerância às dosagens, um dos caminhos que levam à overdose. São drogas extremamente perigosas, porque atuam no tecido neural. Daí a importância de ter um especialista por perto, diz o psiquiatra Danilo Baltieri, do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de psiquiatria do Hospital das Clínicas.
Apesar de todas essas placas apontando para o perigo na estrada, um bom número de pessoas defende que o conforto químico com responsabilidade vale a pena - e se mostra disposta a banir o tom pejorativo que costuma acompanhar o termo remédio controlado. É uma movimentação suficiente para criar um fenômeno de comportamento.


