Na novela, história de amor rende polêmica
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domingo, 19 de janeiro de 2014
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Londrina - Um romance retratado pela novela "Amor à Vida" está gerando polêmica entre os telespectadores. Afinal, é possível o relacionamento entre a personagem Linda, diagnosticada como autista, e o advogado Rafael? Na trama, o casal chegou a trocar um beijo que resultou na prisão do advogado, acusado de abuso de incapaz.
Na "vida real", o psicólogo Celso Goyos, pesquisador da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)e coordenador do Laboratório de Aprendizagem Humana, Multimídia Interativa e Ensino Informatizado (Lahmiei)da instituição, explica que a possibilidade de uma pessoa com Transtorno de Espectro Autista (TEA) ter um relacionamento amoroso ou mesmo independência no dia a dia vai depender do grau de comprometimento apresentado. "Também depende do tipo de intervenção recebida e os resultados dessa intervenção", diz, acrescentando que o tipo de relacionamento amoroso pretendido e o contexto social são outros fatores a serem levados em conta.
"É claro que o resultado será altamente individual. Haverá aqueles que sequer tomarão iniciativa na direção do relacionamento amoroso, até aqueles que poderão se sentir capazes de tê-lo, e com auxílios pequenos, médios ou altos, poderão atingir seus objetivos, mais ou menos como com qualquer outra pessoa com desenvolvimento típico", explica.
Quanto aos aspectos legais da proibição de relacionamentos amorosos envolvendo uma pessoa com autismo, ele esclarece que a Justiça deve, antes de tudo, declarar o indivíduo incapaz, convocando um especialista para emitir um parecer a respeito da incapacidade. "Este profissional deve ter especialização reconhecida na área de autismo", lembra.
Apesar da polêmica envolvendo a novela, o pesquisador ressalta tratar-se de uma interpretação artística. "Não há como apresentar uma obra sem conexão com a realidade, mas essa conexão não se dá de maneira integral. Não considero que seja dever do artista apresentar a realidade da mesma forma que a ciência. Já é um grande avanço que uma novela divulgue um tema tão relevante", pondera.
Já a pesquisadora da UFSCar Ana Arantes, professora do curso de pós-graduação em Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, tem uma opinião mais radical. Para ela, as características demonstradas pela personagem Linda são confusas e "jamais se enquadrariam nas características de pessoas com TEA". Ela critica, também, o tratamento psicológico de Linda mostrado pela novela. "Nenhuma das sessões com o psicólogo retratadas chega perto do que é realmente o tratamento adequado para autismo", critica, esclarecendo que o tratamento do autismo é feito por psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, neurologista e psiquiatra, entre outros. "É um tratamento intensivo, todo dia, o dia inteiro, e envolve também os pais e os cuidadores. Se iniciado precocemente, quando a criança é bem pequenininha, o desenvolvimento pode ser quase igual ao de uma criança típica em algumas áreas. Mas quanto mais tarde o tratamento é iniciado, mais lento é o resultado", adverte.
Sobre a novela, ela afirma que a situação retratada não deveria acontecer em um contexto real. "Linda é uma menina com sério comprometimento cognitivo e de comunicação, se envolvendo com um homem adulto, com desenvolvimento típico, provavelmente bem mais velho, e sem o consentimento da família", argumenta, esclarecendo, por outro lado, que as pessoas com TEA não têm necessariamente o desenvolvimento emocional comprometido e podem se apaixonar e ter um relacionamento romântico e sexual saudável com outra pessoa. "Há vários autistas casados, pais e mães de família, que se dão muito bem com ou sem apoio externo. Mas há também muitos casos em que o autista precisa de supervisão e apoio constante até na idade adulta, porque ele não tem habilidade de tomar decisões complexas sozinho, ou não consegue se comunicar com eficiência, ou mesmo porque seu grau de desenvolvimento cognitivo não permite que ele seja considerado capaz legalmente."


